terça-feira, 28 de outubro de 2008

A Compás - O Fandango

A propósito de uma música que quero partilhar convosco, inicio aqui um conjunto de histórias que terão como tema o Flamenco, apresentado não na perspectiva do vivido, mas da didáctica: o que tenho aprendido eu sobre o Flamenco?

A origem… O que distingue os palos - porque é isto uma Rumba e aquilo uma Bulería… O traje, os adereços… O cante, o baile, o toque… Ayayayyyyy…

Pois é! É um mundo fascinante, mas muito difícil… Quanto mais leio sobre o assunto, mais baralhada ando. Mas vou escrever na mesma. Quem sabe um dia destes um Sábio desta arte não leia as minhas histórias e resolva dar-me uma ajudinha? ;)

Em Fevereiro deste ano, as Araquerar rumaram à Capital para fazer uma workshop com “El Maleno” (baile), “El Pulga” (toque) e Joaquín Moreno (cante), na Pró.Dança. Duas tardes a bater palmas, porque fazia parte da aprendizagem, e porque eles mereciam, claro!

No final daquele fim-de-semana, não sabia fazer a pequena coreografia que nos ensinaram (ainda hoje não sei…), não sabia “descansar” a preparar “a subida” para o “remate”, como o Maleno… Mas uma coisa vos garanto que aprendi: “En el Flamenco, lo más importante es lo compás!”, que nos disse o Pulga logo no início.

Os diferentes estilos tradicionais do cante flamenco designam-se como “palos”, que são classificados de acordo com o seu compasso rítmico, a sua jondura (intensidade), o seu carácter festivo ou sério, a sua origem geográfica, os temas do cante…

O compasso é uma unidade, frase rítmica, com acentos específicos. Certo? Ora isto significa que, por exemplo, no Tango, que foi o que aprendi e por isso é mais fácil explicar, falamos de um compasso de 4 tempos, onde os tempos mais fortes – acentos - são o primeiro e o terceiro. A frase rítmica completa é de oito tempos e as palmas podem acentuar tempos diferentes ou em contratempo… Mas isso, fica para outro dia… Ufa! Agora vou descansar um bocadinho… Como o Maleno… Agarrada à bengala, a sapatear até ao desespero (meu, claro!, que ele parecia-me bem…).

Os palos organizam-se em compassos de 3, 4 e 12 tempos. E em função dos critérios atrás apresentados, organizam-se em famílias. Hoje vou escrever sobre essa grande família que são OS FANDANGOS. A origem do Fandango é curiosa porque não surge com o Flamenco, mas aparece na História como um baile popular, expressão do Folclore da Península Ibérica, que terá sido “aflamencado”.

Existem referências a uma forma de baile, com semelhanças com o Fandango, já na Grécia Antiga e Império Romano, onde seria dançado com uma espécie de castanholas. A sequência harmónica descendente (lá menor, sol maior, fá maior, mi maior), típica do Fandango, era já utilizada no Barroco. Hã??? As coisas que eu sei! (Deste parágrafo, por incrível que pareça, o que eu entendo menos mal são as notas de música!!)

Nos finais do século XVIII, era uma dança popular em diferentes regiões de Espanha, País Basco e Portugal. No início do século XIX, a Andaluzia “aflamenca” o Fandango, que hoje constitui um dos mais importantes palos do Flamenco, com inúmeras derivações.

O Fandango é um palo melódico, de movimento vivo, de compasso ternário, com versos octassilábicos e que utiliza com frequência as castanholas. É o que mais variações apresenta, provavelmente. Vou apresentar a seguir as diferentes derivações do Fandango. A estrutura que me pareceu mais simples. Mas, tal como o Fandango, os estudiosos do assunto também variam um bocadinho entre si. Ora aqui vai:

  • Fandangos de Huelva: Locais e Personalizados;
  • Fandangos de Málaga: Malagueñas, Rondeñas, Jaberas, Verdiales;
  • Fandangos de Levante: Granaínas, Mineras, Cartageneras, Tarantas, Tarantos.

Sobre as diferenças entre cada um deles… Bem, fica para outra história! Agora, vou descansar. Pego na bengala e sapateio… :D

Deixo-vos com a frase rítmica base do Fandango – LO COMPÁS!

1 2 3 1 2 3 1 2 3 1 2 3

1 2 3 4 5 6 1 2 3 4 5 6

x x x x x 0 x x x x x 0 (Palmas)


E agora, é simples! É só ouvir a música e bater as palmas! A compás! Clap, Clap, Clap….

Vicente Amigo – Mensaje. Liiiiiiiindo… O Fandango! Olé!!!






sábado, 25 de outubro de 2008

Payos, Paillos e Senhores


As pessoas comunicam e o mundo avança. Esta ideia tem sido escrita noutras histórias. E vou repetir-me e repetir-me… Intencionalmente. Quando partimos à descoberta do Outro Diferente, criamos espaços comuns de entendimentos, de diálogos. A rede de afectos constrói-se, as barreiras caem, as pessoas aumentam e o mundo avança… Araquerar… Conversar, falar…

As formas que temos para comunicar uns com os outros são muitas e diversas. Temos a linguagem verbal, oral ou escrita, onde o código utilizado é a palavra. E com as palavras dizemos o que sentimos, o que pensamos. Como eu estou a fazer agora. A partilhar uma ideia, a procurar entendimentos com vocês, aí desse lado.

E temos a linguagem não verbal, onde os códigos podem ser o desenho, os sons, a dança, a expressão corporal. Se me inclino para vocês, estou a ouvir-vos, se franzo o sobrolho, o assunto é de evitar, se abro os olhos… Bem, o melhor é fugir!!!

Utilizamos os códigos, verbais e não verbais, em contextos específicos, formais, académicos, sociais, afectivos. Porque os códigos legitimam, igualizam ou relacionam afectivamente um determinado grupo de pessoas, comunidade ou país. Porque são uma forma de definir ou de dar identidade a um grupo. É o caso das culturas urbanas, por exemplo. Io bro! Tá-se!

A Linguística interessa-me mas o meu conhecimento sobre ela é limitado e, por isso, fico-me por aqui. É através desta ciência que sabemos que o Povo Cigano tem a sua origem no norte da Índia. E é através do estudo da Língua que supomos o seu percurso pela Europa e pelo resto do mundo. Pela língua. Pela comunicação…

Supomos que terão imigrado por volta dos séculos X e XI e que a sua rota mais provável tenha sido da Índia para a zona da Antiga Pérsia. Os escassos registos históricos que existem situam os ciganos no Irão, Iraque ou Egipto. Daí terão seguido para os Balcãs. Terão chegado à Península Ibérica por volta do século XV.

O primeiro documento da entrada dos ciganos em Espanha, diz que se designavam a eles próprios como “ruma calk”, que significa “homem dos tempos”. Com eles trouxeram a música, as palmas, a batida dos pés, as palavras “felco” e “mengu”, que significarão “camponês” e “fugitivo”. Flamenco!

E sabemos isto porque o romani, a Língua dos ciganos, tem semelhanças com o sânscrito e o páli, línguas utilizadas na Índia. Acresce a questão das tradições. O sistema de castas indiano apresenta semelhanças com a vivência em comunidades familiares pelos ciganos.

Quando comecei a pensar na forma virtual de apresentar este Caderno, decidi seleccionar algumas das palavras do Léxico Romanon-Calon, elaborado pelo Nómada, e divulgá-las. Pensei que seria talvez um esforço em vão porque poucas pessoas, para além dos académicos da Linguística, se interessariam por estas coisas. E então lembrei-me de transformar as tradicionais “etiquetas” em “Palavras Mágicas” e utilizar a Língua dos Ciganos nas histórias. Seria uma tentativa para tornar o Léxico num instrumento dinâmico, uma fonte de comunicação entre mim e vocês.

Os ciganos não gostam que os não ciganos entendam o romani. Porque é uma linguagem própria e exclusiva, que lhes permite manterem-se unidos, vivos e com as suas tradições preservadas. Estamos a falar de uma comunidade que tem inscrita na sua História séculos de perseguições, forçados a caminhar de território em território, para garantirem a sua sobrevivência. E esta comunidade sobreviveu porque se fechou. E o romani é um código que lhes dá uma Identidade.

Eu sabia isto mas insisti em divulgar o romanon-calon. Chamei-lhe “Palavras Mágicas” e não foi por acaso. Tal como o “Abre-te Sésamo” do Ali Babá o cobriu de tesouros, descodificarmos o romani abre o caminho da comunicação, do entendimento. Constrói afectos. Destrói barreiras. Aumentamos. E o mundo avança…

Não é fácil descodificar o romani. Dependendo da zona geográfica onde se estabeleceram, os diferentes grupos ciganos assimilaram os costumes e tradições dos locais. E isto reflecte-se na linguagem. Na Península Ibérica, falamos de romanon-calon ou romani-caló…

E por serem uma cultura ágrafa, sem forma escrita, a História dos Ciganos é transmitida oralmente, de pais para filhos. Os conhecimentos, as tradições, a Língua, passados de geração em geração, e, simultaneamente, a História a adaptar-se ao local. E por isso encontramos diferentes maneiras de representar a mesma palavra. Quando dizemos payos, paillos, pailhos, senhores, gadjé, estamos sempre a falar dos “não ciganos”, brancos. Para os "não ciganos" negros temos a palavra “calhardon”, que também significa “café”.

E por tudo isto, não desisti de colocar o Léxico no Caderno. Porque o romani faz parte da História de um Povo, da sua memória colectiva, que deve ser preservada, estudada, divulgada. Porque também serve para nos entendermos e comunicarmos.

E percebi que editar o Léxico, as Palavras Mágicas, não tinha sido um esforço em vão, quando um destes dias um amigo, para me dizer que ia ao dentista, me escreve a seguinte mensagem:

Bom… Vou narrar-me. O senhor doutor vai ficar barbaló e eu chororó. Asi es la pacha! Zuenos! Hasta Mañana!


A inspiração ou Duende para esta história nasceu da comunicação com um amigo, ainda mais cromo que eu, que suspeito não seja deste planeta… Foi em código, para só ele perceber… ;)

E para os mais curiosos, deixo aqui alguns links onde poderão aprender muitas coisas interessantes sobre a História do Povo Cigano. E fica a promessa (mais uma!) de voltar a este tema numa outra história… E para os mais desconfiados, as promessas estão a ser anotadas no meu Caderno de papel…


http://www.unionromani.org/pueblo_es.htm

http://iceweb.org/cadernos_ice5.html

http://iceweb.org/cadernos_ice9.html

http://www.agencia.ecclesia.pt/pub/33/noticia.asp?jornalid=33&noticiaid=59514

http://dancasdomundo.no.sapo.pt/dcigana.htm


terça-feira, 21 de outubro de 2008

Coincidências...


Prólogo

Quando olho para trás, para a minha infância e juventude, não me recordo da presença do Flamenco na minha vida. As duas únicas excepções que assinalo são as castanholas e o xaile que um tio me trouxe de Espanha, que dei a alguém numa das minhas febres de arrumações, e o ter ido a Sevilha numa excursão com a família, da qual apenas registo na minha memória pombas, pombas e mais pombas…

Capítulo 1 – Hablas Castellano?

A América Latina sempre puxou por mim. Pela música, pela literatura, pelas constantes revoluções sociais. Sempre gostei do castelhano, especialmente com o “sonido” cubano ou chileno ou peruano… Uma vez, comprei um curso de espanhol, daqueles do Planeta Agostini. E durante algumas semanas andei entretida com as cassetes e os cadernos de exercícios: “Yo moro en la calle de Las Olivas, numero diez”. Hoje, o interesse pelo castelhano facilita-me a compreensão das músicas flamencas. E tenho no computador links para dicionários. Tenho de perceber tudo, embora o flamenco mais jondo seja difícil porque come as consoantes e arrasta as vogais e usa expressões do calón. A minha mãe costuma dizer-me que, quando eu era pequena, era “muita espanhola” a falar. Deve ser por isso…

Capítulo 2 – O Duende de Lorca

As conversas sobre a Guerra Civil Espanhola. “Por quem os sinos dobram” e o Hemingway. As espreitadelas furtivas nos livros em cima da mesa-de-cabeceira, sentada na cama. Sentia-me quase clandestina, a invadir um espaço que não era meu. E ali estava ele, Frederico García Lorca. Anos mais tarde, numa das muitas deambulações pela net a descobrir o Flamenco, encontro o conceito de Duende. E reencontro-me com Lorca. E durante muito tempo procurei o texto completo “Teoria e Prática do Duende”. Quando finalmente o descobri, li-o avidamente, como se fosse um amigo perdido. Imprimi-o e li outra vez. Reli-o e sublinhei. O Duende, que não se explica, estava explicado!

Capítulo 3 – Vicente Amigo

Eu teria os meus vinte anos. A Feira de Sant’Iago ainda “morava” no centro da cidade. Sair à noite com os amigos. Tropeçámos num concerto ao ar livre. Vicente Amigo. Não sabia quem era. Mas fiquei agrafada ao chão… Rendida. Nos anos que se seguiram, fui ouvindo aqui e ali, por acaso, outros nomes do Flamenco. O Al Di Meola, o Fosforito e, sobretudo, Paco de Lucía. E os incontornáveis Gipsy Kings, nas discotecas. Passou muito tempo sobre aquele primeiro momento. Ouvia os cds das aulas de flamenco e começava a descobrir o flamenco alternativo. Um amigo mostrava-me música, atrás de música. E com um sorriso malandro, a bater as palmas, disse-me: “Este é o Vicente Amigo. Deves conhecer…”.

Capítulo 4 – O Traje Flamenco

(Advertência: Este capítulo pode conter linguagem eventualmente chocante.)

Sempre me fez muita confusão as crianças que no Carnaval se mascaravam de “Espanholas”. Aqueles vestidos de cores berrantes, os folhos, muito pintadas, com o sinal no queixo… Chamava-lhes “putas espanholas”. Anos mais tarde, num dos primeiros espectáculos, quase chorava porque as outras payitas insistiam para que me maquilhasse. E uma delas vem ter comigo, semi-esborratada, e diz-me num desabafo: “Pareço uma puta mexicana!”. A relação estava estabelecida e a conversa iniciava-se sobre os preconceitos que nos inibem a expressão completa do nosso EU. Hoje, se não pinto pelo menos os olhos para um espectáculo, sinto-me despida. Ouço-me dizer coisas como “eu quero a minha saia vermelha às bolas pretas!”… Eu, que nunca suportei bolas! E apercebo-me de que o vermelho foi desde sempre a minha cor preferida. E que desde sempre precisei de ir às compras na companhia de alguém que me controlasse a compulsão de trazer tudo o que existe em vermelho e preto…

Capítulo 5 – As Zíngaras

Cinco mulheres. Em formação. A rir e a brincar com os estereótipos da sua própria condição. E com isto a dizerem-nos que sabem como nós, payos, os pensamos a eles, Ciganos. Foi assim o meu primeiro encontro com as mulheres que algum tempo depois fundariam a primeira e única associação de mulheres ciganas do país: a AMUCIP. Volto a reencontrá-las noutros momentos, pelo Nómada. Participo em workshops de flamenco com as Zíngaras, grupo de baile flamenco nascido na AMUCIP. Quatro mulheres a dançar. E eu agrafada ao chão... Rendida. “A Sónia das Zíngaras começou a dar aulas em Setúbal. Vamos experimentar?” E fui. E hoje faço parte de um grupo que nasce desta espiral de encontros. E danço com ela, em cima do mesmo tablao. E peço-lhe reuniões para que ela me ensine formas de seduzir e de me aproximar às comunidades ciganas dos Bairros…

Capítulo 6 – Granada: Paraíso cerrado para muchos (Lorca)

Estive em Granada. Mil novecentos e noventa e seis. Passeei pelas ruas. Bebi chás nos bairros árabes. O entardecer nas varandas. O Alhambra, inacessível. Marcações com meses de antecedência. A olhar para ele… As Cuevas. O meu primeiro espectáculo de Flamenco. A sala branca, as cadeiras encostadas à parede. O licor de manzana. Os bailaores a três palmos dos nossos olhos. Fiquei agrafada à cadeira… Rendida. Gostava de voltar a Sevilha, mas a Granada ia já! E voltava, uma vez e outra… Há pouco tempo, em mais uma das minhas aventuras na net à procura do Flamenco, descobri uma imagem de um Duende. E pensei que se algum dia fizesse uma tatuagem era aquela imagem. Eu que sempre disse que tatuagens nunca! Demasiado definitivo! Uma imagem de um Duende, pintado numa parede, de uma rua, em Granada…

Epílogo

E de repente lembro-me de uma frase dita num filme que vi há muitos anos, do Joaquim Leitão: “As coincidências são acasos com sentido…”.


(Esta história foi escrita para a minha amiga Mafalda, que lhe inspirou o título e o tema. E porque não lhe conto uma história há muito tempo… A Mafalda, uma artista das ciências exactas. Por coincidência…)




domingo, 19 de outubro de 2008

Amanhã não será a véspera desse dia...



Tantas vezes tenho falado aqui no Nómada, que está na altura de contar esta história.

O Projecto Nómada nasceu em 1996, no Instituto das Comunidades Educativas (ICE) e durante mais de dez anos promoveu o combate à exclusão social, cultural e escolar das comunidades ciganas e promoveu a sua participação e cidadania activa. E isto é tudo o que vou escrever do Nómada, enquanto Projecto Institucional. Para os mais curiosos, está todo explicadinho e arrumadinho na página do ICE, aqui ao lado, nas Coisas com Duende.

Esta é a minha história Nómada, do caminho que percorri e a forma como o vivi. E para mim, contar o Nómada, é contar a Myrna: a responsável nacional pelo Projecto, também ela oficialmente apresentada aqui ao lado.

Já sabia quem era antes de a conhecer. Tinha sido educadora de infância dos meninos com quem vim a trabalhar, quando fui para o Bairro. Estávamos em 1997, 1998... O estatuto que ela tinha na comunidade cigana era tão marcante, que eu começava todas as conversas com as crianças ciganas, falando nela: "Ah, tu andaste aqui no CAIC com a Myrna, não foi?". Tinha-me apropriado da sua pessoa, sem a devida autorização. E a conversa seguia e a relação iniciava-se.

Quando finalmente a conheci, num Encontro sobre Prevenção de Riscos, na Biblioteca Municipal de Setúbal, e não me apetece confirmar a data, confessei-lhe a artimanha. Numa expressão típica dela, esbugalhou os olhos e abriu a boca, num espanto... Ainda hoje não sei se pelo abuso de confiança, se pela ousadia da estratégia. Gostei dela, imediatamente!

Daí para a frente, encontrámo-nos regularmente noutros momentos, a reflexão sobre o Bairro a amparar-nos a construção de uma amizade. Era inevitável e, por isso, em 1999 entrei para a rede de pessoas que constituía o Nómada. E os anos que se seguiram foram de intensa aprendizagem, de convivência, de partilha de ideias e sentires. A crescer e aumentar enquanto Pessoa Profissional, enquanto Pessoa Pessoa.

Construímos o livro "Ciganos aquém do Tejo", feito todo a partir da prática, do vivido com as crianças. Aprendemos como a Matemática, como as noções de Espaço e de Tempo, nos moldam e nos transformam a realidade, consequência de termos ou não o nomadismo inscrito na nossa ancestralidade.

A EcoFormação, das 18h30 às 20h30, uma vez por mês. Voluntariamente... Porque estávamos cativados... A documentação distribuída, o resumo da reunião no dia a seguir no computador, assim que chegávamos ao trabalho... As reflexões, o desmontar de preconceitos, a discussão em torno dos dilemas éticos (o mais complexo para mim - o papel da mulher cigana na comunidade), o partilhar de histórias e vivências... O aniversário da Ana Paula a coincidir com a última sessão do ano lectivo, a folha de presenças, eternamente rasurada por mim, num código cúmplice com a responsável, só para dizer-lhe que também ali estava e que queria continuar a estar...

Os Encontros Regionais, Nacionais, todos os anos... A desfazerem toda e qualquer inibição de falar em público. E a confirmarem-me esta suspeita de que não consigo falar para as pessoas, escondida nas novas tecnologias. O powerpoint inútil, eu a contar histórias... Encontros para partilhar ideias e para construir redes de afectos. Na Piscina Municipal de Serpa, os petiscos a representarem as diferentes "culturas" em presença, os chouriços e queijos alentejanos, o pão, as sardinhas do Sado, a caldeirada à Algarvia, os Dom Rodrigos, o vinho tinto - môl olô... A misturarmos tudo, a experimentar o Cante Alentejano, agarrados uns aos outros, num balanço, para não caírmos, como dizia o meu avô...

A terminar num Encontro Internacional. Inesquecível... Pelas aprendizagens novas... Porque conhecemos pessoas diferentes... Ciganos, espanhóis e franceses, professores universitários, a mostrarem a quem ainda não sabia, que não podemos reduzir as pessoas ciganas ao estereótipo, sob pena de perdermos oportunidades maravilhosas de conhecer pessoas diferentes de nós. E o Portinho da Arrábida a servir de tablao a novas perspectivas para olhar o mundo...

A Animação de Mercados... Ainda hoje sinto tristeza por não ter nunca conseguido ir ao Mercado de Serpa e do Algoz. Mas estive no Mercado do Pinhal Novo. A tenda montada. Os materiais de expressão plástica espalhados em pequenas mesas de plástico... Os chaborrilhos a correrem ao nosso encontro... Os pais a confiarem em nós e a continuarem na Venda, deixando-os ao nosso cuidado... A Educação ali, transparente, à vista de todos... O que aprendi com isto foi o suficiente para outras aventuras: actividades no chão sujo das ruas dos Bairros, a animação comunitária, no seu sentido pleno.

E depois outra inevitabilidade aconteceu. Entrei para essa grande família que é o ICE. E outras experiências foram iniciadas. Com o ICE, as ideias que "sentia" organizaram-se em paradigmas, estratégias, objectivos, intencionalidades, sentidos... E aprendi com o Rui d'Espiney que temos de aproveitar os "corredores de liberdade", ainda que às vezes me pareçam recantos de um qualquer T0...

E aconteceu-nos o DLearning. A aprendizagem da democracia, a participação cidadã, em quatro línguas diferentes: alemã, francesa, grega, portuguesa. E estive em Brescos, Atenas, Bona, Berlim... Sempre a descobrir e a descobrir-me...

Neste percurso, lá estava a Myrna. Sempre. Que me disse, quando a conheci, uma coisa que eu sei que ela não gosta que eu repita mas (mais um abuso)... Marcou-me! "Primeiro gostamos deles com o ranhito todo e só depois podemos pedir-lhes para se irem limpar..." E é tão verdade...

A Myrna, que viveu pelo mundo, Moçambique, Argélia, Suíça, cidadã do mundo... Nómada. Que viveu uma das suas mais terríveis experiências em Atenas, quando foi assaltada e lhe roubaram os documentos de identificação. De repente, cidadã de lugar nenhum...

A Myrna. Generosa, solidária. Que ri, quando nos rimos. Que chora, quando choramos. Como se estivesse a acontecer com ela. E teimosa, a bater o pé. Infantil, aqui no seu melhor e maior sentido... De mochila às costas. A esbugalhar os olhos e abrir a boca de espanto, as mãos na face... Cheia de presságios e pressentimentos, que felizmente nunca se realizam...

O Nómada. Nome com o qual os ciganos nunca se identificaram. Com toda a razão! Porque os nómadas somos nós, os Payos, que corremos o país em busca de entendimentos, de empatias, a aumentar... O Nómada Institucional acabou. Mas o Nómada existe e continua em cada um de nós que por lá passou.

O Nómada, a resistir ao invasor. E a Mirnix, de coragem intrépida, a irredutível. A acreditar convictamente que o céu nos vai cair em cima. A agir, a sentir e a entregar-se como se amanhã não fosse a véspera desse dia!

E agora tenho de deixar-vos. Vou ao "Líder", comprar daqueles maços grandes de lenços de papel. Suspeito que serão necessários. Será isto um presságio? Mas enquanto vou e venho, deixo-vos com (mais) uma apropriação indevida da pessoa, sem a devida autorização...


Menino Cigano

Num canto do meu coração guardo
o brilho dos teus olhos,
a entrega do teu sorriso,
a avidez do teu abraço,
a agilidade do teu corpo,
a curiosidade do teu silêncio.

Cada instante
que contigo passo,
aprendo a saborear
a curiosidade do teu olhar,
a agilidade do teu silêncio,
a avidez do teu sorriso,
a entrega do teu abraço,
o brilho do teu movimento.

Cada momento
que comigo passas,
aprendo a mergulhar
no interior do meu olhar,
do meu silêncio,
do meu sorriso,
do meu abraço,
do meu movimento.

Em cada desafio
que me lanças,
em busca de ti em mim,
reencontro em ti
pedaços de mim
que em ti busco.

Agora, sei
que o teu olhar
o teu silêncio
o teu abraço
o teu sorriso
o teu corpo
alumia e aquece
o canto do meu coração.

Mirna Val-do-Rio - Dançando a Vida


"Ciganos aquém do Tejo":
http://www.acime.gov.pt/docs/Publicacoes/CIGANOS/Ciganos_Aquem_do_Tejo.pdf

...

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Get Up, Stand Up... Defende tus derechos!


E porque neste Caderno se fala de miscigenação, de encontro entre culturas...

A música, mais uma vez e sempre, a fundir culturas e a ser "voz colectiva" de protesto social.

Y ahora... Levantate! Tudo a bailar, faxavor! Oh Yeahhh... Bro... Olé!!!!




Ojos de Brujo - Get Up, Stand Up (Techarí Live)

terça-feira, 14 de outubro de 2008

A minha família cigana


Costumo dizer que tenho uma família cigana. Porque somos muitos. Nunca tinha reflectido muito nisto, mas os acontecimentos dos últimos dias puseram-me a pensar no assunto…

Volto atrás… Estávamos em 2001. Um dos desafios do Nómada para o ano lectivo era trabalharmos a noção de família com as crianças ciganas. Decidimos fazer árvores genealógicas, construindo mobiles, com canas, fio de pesca e cartolinas. Através desta actividade lúdica, podíamos conhecer melhor as famílias com quem trabalhávamos nos Bairros.

Nenhuma de nós tinha formação nas artes decorativas e afins. Fazíamos e fazemos o melhor que sabemos. Inventando e experimentando. Vem-nos dessa altura o hábito de fazermos primeiro entre nós, para depois replicarmos com as crianças. Por isso, a minha família, por sermos muitos, foi a cobaia desta experiência. E durante algumas tardes, enquanto reflectíamos, elaborávamos pareceres, definíamos objectivos e estratégias, essas coisas importantes que os profissionais do social fazem, também recortávamos cartolinas rosa e azul, para as meninas e os meninos, atávamos nós escorregadios de fio de pesca e cortávamos as canas à medida.

Tive, pela primeira vez, uma imagem visual da minha família. Representada num móbil… A geração dos meus avós, paternos e maternos, com todos os meus tios-avôs; a geração dos meus pais, com os três irmãos do meu pai, os seis irmãos da minha mãe; a minha geração, que incluía na altura o meu irmão e os meus quinze primos. Sou a mais velha da minha geração. Estava grávida na altura. Hoje somos mais. Tenho mais um primo e nasceu uma outra geração.

No final desse ano lectivo, houve uma exposição dos trabalhos, a que não assisti, porque estava de licença de maternidade. O meu móbil lá estava, ao lado dos mobiles das famílias ciganas, rivalizando com a maior de todas!

Somos muitos. E barulhentos! Com sentido de humor! E complexos! E solidários… E nem sei se temos consciência disto. Há pouco tempo, estava a conversar com uma amiga num chat, quando ela me diz que tem de ir embora. Ter com a tia. Ia aprender crochet. Não queria acreditar!!! Crochet?!? E ela responde-me que a relação que eu tenho com a minha família, a fez pensar na relação com a família dela. Que achava bonita a relação de proximidade que temos e por isso tinha decidido dar uma oportunidade à família dela. Fiquei a pensar nas mil e uma vezes que a minha avó materna me tentou ensinar a coser na máquina de costura. Sem sucesso…

Quando esta minha avó esteve doente no hospital, a família mais próxima foi às visitas. Sete filhos e doze netos. E enquanto ela distribuía as suas riquezas em testamento (os naperons bordados, as molas de roupa, relíquias com meio século de existência, a dentadura postiça e os fascículos do National Geographic,…), nós, a família mais próxima, ríamos e dizíamos piadas. Fomos convidados a sair, pelos funcionários do hospital. Perturbávamos os doentes. Talvez… Obedientes e conformados às normas sociais, saímos. Não sei se os outros doentes estariam perturbados, mas a minha avó estava feliz…

Sim, claro! Quando um cigano está doente, a família vai para o hospital. E “acampam” lá e pressionam… Imaginem que até conseguem ser atendidos primeiro! Porque são muitos! Até metem medo!... Leio isto tantas, e tantas vezes, na net…

Aqui há uns tempos, uma amiga contava-me que numa tarde infernal, em que esteve horas sem fim na urgência pediátrica, tinha ficado impressionada com a capacidade de organização de uma família cigana que lá esteve, o mesmo sem número de horas. Enquanto ela e o marido se desdobravam em estratégias para entreter a pequenita, doente e farta de ali estar, os ciganos revezavam-se na assistência ao pequenito doente. Que nunca se fartou… Que nunca se perturbou…

Hoje não me apetece escrever sobre o óbvio. Sobre a relação da comunidade cigana com a Saúde, fica a promessa de uma história. Eu costumo cumprir! Hoje escrevo sobre a minha família cigana. E os afectos…

Escrevi na primeira história que, quando falamos de ciganos, falamos de pessoas com tradições, organização familiar, crenças, expectativas sobre a vida, estratégias de sobrevivência social, próprias e particulares. A comunidade cigana organiza-se pelos AFECTOS. Que se manifestam tanto naquele episódio da urgência pediátrica, como nas vendettas, nas vinganças entre famílias… Os afectos, negativos e positivos. A afectividade, o amor…

E lembro-me… Quando tinha os meus onze anos, andava no Ciclo (5º ou 6º ano, na altura), um dos rapazes mais velhos da escola, da “classe dos repetentes”, sem mais nem porquê, passou por mim no intervalo grande e deu-me uma bolachada! Almoçava, na altura, na casa da minha avó, por ser ali perto, via a “Pipi das Meias Altas” à hora de almoço… Contei este episódio a um dos meus tios. Soube, tinha talvez 16 ou 17 anos, que ele e os amigos se tinham organizado, e tinham dado uma sova ao rapaz. Senti-me bem! Querida, aceite, amada. A justiça feita!

A semana passada morreu-me uma tia-avó paterna, a última da sua geração familiar e a primeira a ir para um Lar. Uma das minhas primas, disse-me no velório, que tinha morrido triste, porque não gostava de estar sozinha, longe da família.

Era impossível, não a ter colocado num lar…. Todos trabalhamos. De cada vez, até cada vez mais tarde… E pergunto-me… Se as novas formas de trabalho e de organização social persistirem, como se vão organizar as famílias ciganas? Que se responsabilizam pelos seus, que se organizam de forma a garantirem a assistência afectiva dos seus? Não teremos nós que aprender qualquer coisa aqui? Com as famílias ciganas? E crescer e aumentar, enquanto pessoas?

Tenho uma família cigana. Uns escrevem esboços de livros, que mostram à irmã para uma opinião avalizada; outros ensaiam em grupos de rock ou declamam poesia ou são dreads e fazem graffitis… Outros descobrem o Duende de Lorca, e viajam pelo imaginário do Flamenco… E a família desloca-se com espírito nómada para os ver. Estamos lá todos. A família! Com afecto! Temos consciência disto?

Sim, sim... Nós não fazemos fogueiras, nem casamentos na praceta, durante três dias... Não, nós organizamos almoços na quinta, ou jantares no terraço com barbecue do tio, ou fazemos as férias na casa de praia da tia. Porque podemos!

Costumo dizer que tenho uma família cigana. Porque somos muitos. Mas, sobretudo, porque o que nos une são os afectos…. Camelados, uns nos outros…



segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Hora dos "Réclames"



Caros leitores, vamos fazer uma breve pausa neste Caderno. E aproveito o intervalo para fazer um bocadinho de publicidade, gratuita e ilegal. Como se quer!

As Araquerar mudaram de casinha. Agora estamos nessa grande colectividade centenária, a Capricho Setubalense. Sala de espectáculos, palco, chão de madeira, camarins com vista para o Largo. A lókura!! E se ao fim de duas aulas a bater o pé, com duende (que é como quem diz, com força!!!), ainda não fomos parar ao primeiro andar... É porque estamos ali para durar! Nós e a Capricho! :D

Se ficaram com comichão nos pés com algumas das histórias deste Caderno, se gostam de música flamenca, apareçam. Terças à noite, a partir das sete e trinta (19h30).

Uma animação! Consta que foram após a última aula, sentadas nas escadinhas do Largo, a experimentar o Cante e as Palmas... Para quem as quis ouvir!! (Os reformados, sentados nos bancos, não se queixaram...)

"Llevo ya pa'15 años..."... clap, clap... dos, tres, seis, sete, ocho, nueve, diez...


Sociedade Musical Capricho Setubalense R. Soc. M C Setubalense (Lg. da Misericórdia), Setúbal Tel: 265522327 f: 265522327

http://www.myspace.com/caprichosetubalense


sábado, 11 de outubro de 2008

"Vocelência dá-me lume?"



Final de Julho. Encerrámos em grande estilo a tournée 2007/08. Férias! Weeeeeeeeeee… Dar descanso às saias, arejar os sapatos. Fazer inventário de ganchos e elásticos. Repor stock de meias, gel, eyeliner, e essas coisas fundamentais ao Flamenco…

Não podíamos estar mais enganadas!!! Fomos desafiadas a ir bailar a Alcochete, num bar. Recebíamos cachet. Estamos a fazer um pé-de-meia para renovar os modelitos. O Flamenco é uma paixão extravagante…

Irrecusável o desafio! Nunca tínhamos bailado num bar. Disponíveis apenas três pessoas: eu, a Fiona e a Sónia - a Professora!

O contacto surgiu através da Fiona, foi a Fiona que tratou de tudo. Assim funcionam Las Araquerar! Tudo combinado com o dono do Bar. Dia 2 de Agosto, três apresentações, duas músicas de cada vez, a começar por volta das onze da noite e a terminar pela uma da manhã. Vestir e maquilhar? No bar não havia condições, seria numa casa próxima.

Fomos no meu carro, ou como diz o meu mano, no meu chaço! Carrito piqueno… Terá o seu papel nesta história. Siga!… Pela A12, para Alcochete!

Chegámos. O Bar, um espaço agradável… O tablao… Ao ar livre, rodeado de palmeiras, iluminado por archotes, um estrado de madeira, não muito maior que aquelas paletes de madeira das cervejas… Pensámos, nós vamos cair!!! Ainda bem que só viemos três… Mal cabemos…

A Sónia apreensiva… Eu e a Fiona, mortas de riso… Fomos deixar as coisas no espaço onde nos vestiríamos para o espectáculo. Tivemos de ir de carro. O local era próximo do bar mas impossível fazer como planeado: mudar de roupa entre cada apresentação… O que fazer? Experiente na arte dos improvisos, a Sónia tinha a solução: fazemos como nos casamentos ciganos!!! Mudamos de roupa no carro!!! Enquanto uma se veste, as outras tapam com toalhas! Siga!!! Olé!

Voltámos ao bar. Sentámo-nos na esplanada. Era cedo. Comer, beber uma jolita para descontrair. Jantar por conta da casa. Conversámos. Confidências. Pela primeira vez, falámos abertamente da vida afectiva de cada uma… Uma cigana, uma paya velha e uma paya nova…

Eram horas… Fomos para o local que faria as vezes de camarim. Estava quase. O nervosinho no estômago a começar… Uma casa toda catita, nova, ainda por habitar… Ocupámos o espaço, espalhámos as roupas, os lápis dos olhos, o rímel, e as outras coisas todas que não sei o nome…

O nervosinho aumentava, estava na hora do disparate. A Sónia, desesperada, a tentar transformar duas ovelhas negras em duas gueishas flamencas. Impossível naquele dia! Só ríamos! Completamente esborratadas, eu e a Fiona, a trocarmos “mimos”. E a rir, a rir… A Sónia suspirava e abanava a cabeça: “Eu desisto!”… E ria, claro!

Vestidas e de pintura borrada, fomos ensaiar. Ainda tínhamos tempo. Só fazíamos a primeira apresentação às onze da noite. Foi quando a Sónia se lembrou de fazer uns pequenos ajustamentos na primeira sevilhana. O costume! E que nunca funciona, mas somos pessoas optimistas e nunca recusamos um desafio! Siga! Trocamos de posição na passada! Ayayyyy…

Alguém se lembrou de ver as horas: onze e vinte!!!!! Atrasadíssimas! O costume. Pegámos na trouxa, enfiámo-nos no carro e siga! Subimos para o tablao, em transe. Fiquei à frente, do lado direito, debaixo da pernada de uma palmeira. Primeira sevilhana. Não tínhamos chegado ao fim da primeira copla e já estávamos todas baralhadas! Eu, cada vez que subia os braços, batia na pernada da palmeira. E de repente senti-me como o Vasco Santana naquele velho filme português, a falar com o candeeiro. Apeteceu-me perguntar à palmeira: “Vocelência dá-me lume?”. O riso invadiu-me novamente. Foi até ao fim, a bailar e a rir, uma canção que fala de paixão e sentimentos fortes…

O tom do espectáculo estava definido; muitos enganos, riso, a estudarmos atentamente o espaço, para não cairmos do estrado. Um desassossego! Nos intervalos, a mudar de roupa no carro. A vestir saias em cima de saias, enroladas na cintura, a vestir e a despir camisolas, trocar flores no escuro, a apalpar ganchos. O meu carro transformado num tablao perfeito para o strip flamenco!

No final do espectáculo, sentámo-nos novamente na esplanada. A pensar: “o senhor não vai pagar o cachet”. Tivemos direito ao jantar e vá… Depois desta vergonha… Foi a Fiona que arranjou o contacto, foi a Fiona que foi tratar do negócio. Eu e a Sónia sentadas, na expectativa. Quando a Fiona voltou do Bar, a rir, e a dizer-nos que tinha o cheque e que o dono do Bar queria que voltássemos na semana a seguir para as Festas da Cidade. Caiu-me o queixo!! A Sónia a dizer: “Viram? Não foi assim tão mau!!” Ainda hoje me parece impossível, que alguém nos pedisse para voltar… E rio-me sempre que me lembro daquela noite… E o Vasco Santana salta-me à memória…

Foi uma noite de improvisos, de cumplicidades, mais uma vez. A Sónia disse-me há pouco tempo que eu devia ter sido cigana numa outra vida. Eu de reencarnações, não percebo nada… Mas naquela noite, momentos houve em que me senti cigana. Já nesta vida!

Voltámos para casa, cansadas, cúmplices, mortas de riso! Pela A2… O meu sistema de georeferenciação, no seu melhor! Cheguei a casa pelas três da manhã, certa de que ali estava uma história que merecia ser contada, e com meia dúzia de ganchos e elásticos espalhados pelo carro… E uma alça de soutien. De quem é? E siga! Olé!!!

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Chaborilhos e Lacorilhos

Fui à minha primeira Reunião de Pais. Preparada para um debate desorganizado, sem qualquer respeito pela ordem de trabalhos previamente anunciada pela professora, sem o tradicional “dedo no ar”. Foi o que aconteceu! Num país onde a democracia participada é ainda uma “miragem”, a falta de treino na participação em debates e reuniões, o desconhecimento das regras na exposição de opiniões, no negociar de perspectivas, é transversal à cultura, às habilitações literárias, à classe social. Por isso, não me surpreendi…

Mas nada me tinha preparado para o “clima de guerra” que se viveu naquela reunião! A agressividade no discurso de alguns pais, opondo-se e ameaçando a professora, sem escutarem as explicações que esta, cansada e desalentada, tentava transmitir. Acho que a professora optou por ignorar. Passar à frente. Terminar a longa lista de recomendações que o nosso Ministério da Educação (ME), por alguma inspiração divina, tinha decidido fazer dela a Porta-Voz.

Uma das mães, após um discurso inflamado, esteve ao longo de toda a reunião a murmurar, mas de forma perceptível para todos nós, “Parto-te a boca toda!”. Afinal, o seu anjinho de 6 anos apenas tinha agredido fisicamente vários colegas, partido mobiliário escolar e passado um dia de aulas a correr de mesa em mesa, em vez de fazer os trabalhos propostos de Língua Portuguesa… Crianças! Não são todas assim?... Outra mãe insurgiu-se contra a professora porque esta, transmitindo uma norma do ME, estava a negar ao seu educando o direito fundamental, consagrado na Carta dos Direitos da Criança (suponho, que ainda não fui verificar…), de beber um Ice Tea e de comer os seus Chipicaos. Um escândalo!...

Surreal! Não passavam dez minutos do início e já eu me perguntava como era possível não estar metade da nossa classe docente de atestado psiquiátrico. Estávamos no final de UMA semana de aulas…

Ainda não tinham passado meia dúzia de dias, fui convocada para uma Assembleia de Pais. Desta vez, em sede de Agrupamento. Diz-se assim. Fui. Com medo. Sem expectativas. Ordem de trabalhos: eleger os representantes dos Encarregados de Educação para o Conselho do “não sei quê” transitório, porque tínhamos 15 dias após publicação do Regulamento, em Maio, para o fazer, e porque o nosso ME é tão flexível que fechou os olhos e, pronto!, podíamos fazer em Outubro e, pronto!, era só dar dois nomes de cada escola, de preferência das Associações de Pais, que era mais fácil e já estão habituados a prescindirem do jantar e da vida familiar para estas coisas e mais isto não lhes faz diferença, e despachamos assim o assunto e, pronto!, vamos todos para casa cedo!

Esta Assembleia começou às sete da noite. Eram oito horas e vim embora. Decidida a não dar nem mais um minuto da minha vida aquela fogueira de vaidades, de alguns professores e encarregados de educação, especialistas em gestão e associativismo escolares… Verdadeiros profissionais… Vim submergida e esmagada em regulamentos e normas de funcionamento do nosso sistema educativo, que se preocupa e prevê e antecipa tudo, menos a educação das crianças…

E começo por escrever isto, para que não se entenda erradamente o que vou escrever a seguir. Nesta “guerra” que opõe pais e professores, não me sinto em nenhum dos lados da barricada… Que fique claro!

Quando vou buscar a minha filha à escola, fico do lado de cá do portão. Agarrada à rede de arame plastificado, na expectativa de a ver sair do edifício, daqueles típicos da Primeira República Portuguesa. E enquanto a minha filha vai percorrendo o caminho que a leva até ao atropelo de pais e filhos ao portão, vamos encetando um diálogo não verbal, feito de gestos e expressões corporais, onde eu lhe pergunto como correu o dia, se brincou com os amigos, se aprendeu novos ditongos, se tem trabalhos de casa, se comeu o lanche todo… Por gestos, numa pantomina patética, que penso só os outros pais, exilados como eu em mais uma norma do sistema educativo, compreendem… A angústia invade-me, seguro as lágrimas, e pergunto-me porque não posso partilhar com a minha filha, desde que a campainha toca, aqueles momentos, dos mais importantes da vida dela…

Quando contava a uma amiga professora estas angústias e lhe dizia que as escolas deveriam funcionar como os Jardins de Infância, permitindo a circulação livre dos pais no espaço escolar, fui surpreendida com um “Era o que mais faltava os pais meterem-se no espaço de trabalho dos professores!!!”. Senti-me agredida! Calei-me, incapaz de expressar em palavras a estupefacção que me invadiu. E passei à frente, falar de outras coisas… Como a professora da minha filha.

Nesta altura, e como a história já vai longa, estarão vocês a perguntar-se o que tem isto a ver com ciganos… Pois tem tudo! Mais um bocadinho de paciência e eu explico…

As crianças ciganas são educadas em contextos de liberdade e improviso, pela família alargada. Pais, irmãos mais velhos, primos, tios… A comunidade familiar é, toda ela, responsável pela educação da criança, pela transmissão dos valores e das regras.

Para os ciganos, a educação é dada pela família. A instrução pela escola. E esta distinção é muito clara. E, à partida, isto parece perfeito. Em consonância com os despachos normativos do ME. Então porque se ouvem tantas histórias de conflitos com famílias ciganas nas escolas? Famílias inteiras ameaçando professores, algumas chegando inclusivamente ao acto de agressão?

Porque têm um percurso escolar diferente, consequência de práticas educativas diferentes, as crianças ciganas chegam à escola, na sua maioria, sem frequência de um jardim-de-infância; algumas sem saberem pegar numa tesoura ou num lápis… Falta-lhes o treino para desenharem as curvas difíceis das letras, o treino para estarem sentadas cinco horas numa cadeira… Crianças, de um modo geral, curiosíssimas, intuitivas, com uma enorme capacidade para improvisarem soluções; enfim, com todas as competências necessárias para aprenderem rapidamente, mas que não se adaptam e desmotivam. Que se isolam e são excluídas pelos pares não ciganos. Porque brincam diferente, porque falam diferente, porque são ciganas…

E o que faz uma criança, cigana ou não cigana, quando não se adapta? Porta-se mal… A frustração interior expressa-se, quase sempre, em problemas de comportamento. E o que faz um professor? Mandatado pelo ME, o professor age de acordo com o Regulamento Interno da Escola e aplica a sanção. Está tudo certo! Para os não ciganos (e como leram atrás, não para todos!). Mas para os ciganos, esta é uma questão de educação e, portanto, o professor tem de estar mandatado pela família… E os equívocos, os mal-entendidos, começam aqui… Por isso, nós, do Nómada, enrouquecemos a falar da importância dos Mediadores Ciganos nas escolas ou da contratação de Auxiliares de Acção Educativa ciganas…

Como o texto vai cada vez mais longo e as diferenças entre práticas educativas de Payos e Gitanos são material para muitas histórias, vou concluir o meu raciocínio.

Acredito, e acreditei sempre, que as diferenças se esbatem quando nos conhecemos, quando conversamos. Não é possível que comunidade escolar e comunidade familiar, independentemente da cultura ou meio social, se constituam enquanto COMUNIDADE EDUCATIVA, se não conviverem, se não partilharem receios, expectativas, se não partilharem espaços, dividindo tarefas, inventando estratégias conjuntas. Cada um tem o seu papel e isto resulta de uma negociação, clara e transparente para todos. O espaço é de todos! A angústia é de todos! O protesto é de todos! A reivindicação é de todos!

Se eu, paya, da suposta “cultura dominante”, escolarizada, que conheço razoavelmente o sistema educativo, que entendo (embora não me apeteça) as alineazinhas dos despachos normativos do ME… Se eu me sinto excluída da escola, como se sentirão os pais ciganos?

Por isso, não me respondam que nós não temos que nos meter no espaço de trabalho dos professores! Não é isso que se pretende! Respondam-me que não temos auxiliares para vigiar entradas e saídas, respondam-me que os equipamentos escolares estão completamente desadaptados das necessidades educativas dos alunos, respondam-me que é difícil ter vontade de ensinar perante as exigências de um ME, autista e castrador de criatividades e improvisos… Eu isso percebo… E estou convosco… Mas para vos ajudar tenho de “viver” ao vosso lado… No dia a dia… Partilhar espaços e conversar, para nos conhecermos.

Porque, acredito eu, tudo o que queremos… Professores, mediadores, auxiliares de acção educativa, dirigentes de associações de pais, pais ciganos, pais não ciganos… Tudo o que queremos é que os nossos chaborilhos e lacorilhos cresçam felizes! Como me dizia uma outra amiga professora: “O que nos anima são os putos!”.

É tão simples, não é? Então porque é tudo tão complicado?

domingo, 5 de outubro de 2008

Lo Bueno y lo Malo



Escolher a primeira música seria sempre tarefa ingrata, num universo de tantas e tantas especiais. Mas esta não me saía da cabeça... E não vale a pena contrariar-me! :)

"Lo bueno y lo malo"... Porque são duas grandes vozes do Flamenco actual: LaMari (Chambao) e Estrella Morente. Com Duende. Porque já gostava desta música numa outra versão. Porque me dizem que tem tudo a ver comigo...

... Esta cantiguita lembra-me pipocas no tapete do carro. Ayayayyyy... ;)







Me paso la vida pensando
en lo bueno y lo malo
mi mente está triste
me siento algo extraña
mi cuerpo se agota, mi alma lo nota
de ver en el mundo
mentiras de otras bocas
la loca envidia que trae la mentira
palabras tan falsas
que por mi mente pasan, hoy pasan.

El tiempo se pasa, y los años me cansan
me enervan mentiras
que trae gente vana
el tiempo está en vilo
yo sé que me pasa, mentiras, palabras
y todo es una farsa
tengo un momento de ansias mundanas
quisiera decir lo que siento
en mi alma
que la vida pasa, hoy pasa.

Y en mí, y en mí, y en mí
y en mí mundo nuevo te voy a olvidar
las aventuras que he podido vivir
y en mí, y en mí
no aguanto mas historias así
...y en mí.