sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

No avesso do cenário...


«Os ciganos não são mais europeus do que americanos ou índios. Os ciganos estão na Sibéria como na China. Estão sempre no avesso do cenário. Eles são a “escória” das sociedades dominantes, seja qual for a dominação. Onde estiver o cigano há dominação. Os ciganos são um revelador das desigualdades, das exclusões. E são mal conhecidos.
Atribuem-lhes hoje, como ontem, virtudes e vícios extraordinários. Lisonjeiam-lhes a estranheza para melhor os ignorarem e a sua selvajaria para melhor os disciplinar. A sua vulnerabilidade para melhor os explorar, a sua fragilidade para os enfraquecer ainda mais. Os jacobinos perguntam se eles têm alma e os padres se eles têm religião. Os revolucionários perguntam se eles são politicamente correctos, os democráticos, se eles são despóticos, as feministas se as mulheres deles são maltratadas; os historiadores se têm história; os musicólogos se eles têm música; os higienistas se eles se lavam. Poucos povos entram no comércio com tantas negações. O seu holocausto é negado tanto pelos estados nacional-populistas como Vichy, como pela Alemanha pós-nazi. Os racistas duvidam que eles sejam uma verdadeira raça, os letrados que eles sejam capazes de escrever poesia. Os revisionistas rejubilam porque os ciganos partilham com os judeus o privilégio do crime contra a humanidade. Mas a humanidade deles ainda não entrou no reconhecimento colectivo. (…) Os Roms, hoje como ontem, mostram-nos o estado do mundo que nós não vemos com os nossos olhos. Um mundo que os encurrala nos subúrbios das cidades. (…) Mais do que Nómada (que eles já não são em parte nenhuma do mundo – pois avaliam-se em 5% os que escaparam, eles têm um pensamento nómada. (…) A sua cultura e a sua civilização não têm pretensões guerreiras nem burocráticas. Eles não totalizam nem os outros nem o mundo. Eles aparecem-nos por segmentos. Um grupo cigano aqui; outro grupo cigano ali. Não se consegue globalizá-los, estruturar firmemente as constantes. Dizem-nos que são diversos, plurais; cada um, um microcosmos.»

Claire Auzias - Os Ciganos ou O destino selvagem dos Roms do Leste (2001)


quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Não há longe, nem distância...


Em Maio de 2006 aconteceu-me o Encontro Internacional do Nómada, uma história inesquecível de aprendizagens e cumplicidades com Outr
os diferentes de mim, e que será aqui um dia contada. A Myrna voltou a reencontrá-los há pouco tempo. Desafiei-a a partilhar connosco esta sua história. É o que transcrevo abaixo. Com inveja... Da boa!!! ;)





"Em Dezembro de 2002, fui convidada pelo Centre de Recherches Tsiganes de Paris, na pessoa de Jean Pierre Liégeois (e por sugestão do então ACIME, na pessoa da Drª Helena Torres) para participar num colóquio europeu sobre a formação de docentes que trabalham com ciganos. Nesse encontro encontrei a Elisabeth Clanet (professora e historiadora poliglota), Ana Gimenez (cigana gitana e professora universitária em Barcelona), o Vincent Ritz (cigano manouche francês, mediador e formador, conhecido por Nara), o Michael Rigolot (professor francês do CASNAV de Besançon e conhecido pelo brasileiro e que trabalhou em Moçambique) e o Alain Montaclair (cigano rom e professor universitário de Besançon). Fiquei com a pulga atrás da orelha…




Em Julho de 2003, fui novamente convidada pelo mesmo organismo a participar na Universidade de Verão, sobre a mesma temática, em Dijon…Desta v
ez, fiz-me acompanhar da Olga Mariano da AMUCIP…Foram 8 dias deliciosos, de uma intensidade de trabalho e de partilha de cumplicidades e emoções que deixaram marcas profundas, ao reencontrarmos amigos… Em Abril de 2004, reencontrámo-nos, alguns de nós, num encontro organizado pelo CASNAV de Amiens e, nesse mesmo ano, em Julho, reencontrámo-nos todos em Talavera de la Reina, noutro Congresso Internacional, sobre a mesma temática…





Em Maio de 2006, desafiei-os a vir a Portugal, para participar no I Encontro Internacional do Nómada II, realizado com o apoio do então ACIME e da Câmara Municipal de Setúbal (com a presença e apoio insubstituível do Espaço Aberto e de La Payita).





Em Dezembro de 2008, fomos novamente desafiadas, a Olga e eu, a participar num colóquio europeu sobre a problemática das comunidades ciganas na Europa, organizado por IUFM e CASNAV de Besançon, instituições onde o Michael Rigolot e do Alain Montaclair trabalham…Sempre presente a alegria do reencontro, à memória as cumplicidades vividas juntos e sobretudo as problemáticas e perspectivas sobre intervenção com comunidades ciganas que partilhamos.





Desta vez, além do colóquio de 3 dias (http://colloqueroms.fcomte.iufm.fr/), prolongámos a nossa estadia por mais 3 dias, a Olga e eu, pernoitando em casa de uns e de outros (Jean-Pierre, Anne Marie, Marise, Marie Claire), todos professores que trabalham com “Les voyageurs” (incluindo as comunidades ciganas), visitámos as “Classes d’Accueils des Enfants du Voyage” (classes trampolins nas escolas do 1º ciclo e dos 2º/3º ciclos) e visitámos as “Écoles du Voyage” (camiões escola) http://gensduvoyage70.fr/index.php?rbr=10&s_rbr=21 que seguem as crianças nos seus “Aires de Stationnement” (parques nómadas).





Tivemos também oportunidade para fazer um brinde com licor de Cassis, ver nevar, comer fondue de queijo, ouvir e ver um espectáculo de fusão musical (entre o Jazz Manouche e a música Rom do Kosovo, cantando, entre outros temas o hino do Povo Roma “Gelem Gelem”). E, mais uma vez, alimentaram-se amizades, trocaram-se perspectivas e experiências, construíram-se cumplicidades. E despedimo-nos com um “Au revoir”, isto é, até à próxima…

Mas ficou-nos um sabor amargo na boca, sentindo a mágoa de, mais uma vez, termos consciencializado que a problemática das comunidades ciganas é, se não à escala mundial, é-o à escala europeia sem dúvida, a de um povo que continua a ser o mais mal tratado e desprezado, apesar de serem já 10 milhões de cidadãos europeus…"

Myrna

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

A Compás: Palos de Ida y Vuelta

E continuamos com um conjunto de histórias sobre o que tenho aprendido eu sobre o Flamenco*. Vou hoje escrever sobre os Palos de Ida e Vuelta.

São estilos aflamencados procedentes do folclore hispano-americano. Sobre o nome que as designa, diz-se que estes palos teriam chegado à América, pelos emigrantes espanhóis, na época dos Descobrimentos. Aí teriam sofrido variações e com o seu regresso teriam ganho as suas expressões mais actuais.

Hoje, acredita-se que a sua origem é exclusivamente do Novo Mundo, em especial Cuba, e que chegaram a Espanha por volta do século XIX, pelos emigrantes.

Desta família musical fazem parte a Milonga, a Vidalita, a Rumba, a Columbiana e a Guajira. Hoje vou demorar-me na RUMBA. Cuba ahora sí! A rumba chega a Cuba através dos escravos africanos. É um palo de compasso binário e o nome deriva do de uma onomatopeia que representa um som vibrante e tonitruante.

Em Espanha, a rumba espalha-se pela Andaluzia – rumba flamenca, e pela Catalunha – rumba catalana.

Quando bailadas, as rumbas são muito sensuais, alegres e contagiantes. São, por vezes, associadas a rituais de fertilidade. A rumba flamenca tradicional continua a ter o domínio da bailaora, que normalmente dança sozinha. Enquanto cante, só começou a ser conhecida por volta dos anos 40, divulgada através dos ciganos da Catalunha.

Uma das características da rumba catalana é a técnica do toque, conhecida como “ventilaor”, inventada por Antonio González “El Pescaílla”. Consiste numa síntese das estruturas musicais cubanas, acompanhada quase sempre pelas palmas e percussão.

E a frase rítmica base da Rumba – LO COMPÁS:

1 2 3 4 1 2 3 4 1 2 3 4

Potente, não? Apesar disso, a rumba é considerada pelos especialistas do flamenco como um género menor… Por lhe faltar a autenticidade e a profundidade genuína do flamenco. A jondura!!! Paradoxalmente, tornou-se o símbolo universal do flamenco e a sua principal atracção turística.

Pois eu não sei… Especialista não sou. Não sendo o meu palo preferido, ainda assim gosto de bailá-las. E dos Ojos de Brujo, catalães, gosto de todas! Deixo-vos com uma das rumbas dos ODB, que até no nome transporta a essência da rumba catalana: “Ventilaor Rumba-80”. E se alguém souber o que significa o “80”… Pués que me diga! Que la curiosidad me mata!


*Ver “A Compás – O Fandango”, de dia 28 de Outubro de 2008.



E ahora… 1, 2, 3, chuta! Ese! Titititititi… Saltito pra trás e vuelta! Com salero!!! Vamo’ya! Olé!!!

Acompanhar com mojitos! ;)

Ojos de Brujo – “Ventilaor R-80”

Música original:

http://www.imeem.com/eduardo8leao/music/mQQow0d1/ojos_de_brujo_ventilaor_r80/

Versão ao vivo – vídeo:

http://www.veoh.com/videos/v7079278bmDC8a3

Si este mundo anda perdío
Y no encuentras la razón
Échate una buena rumba y baila! Baila! Baila!
No pa olvidar, sino pa llevarlo mejor escucha!!!
La mochila que llevamos
va cargaita de piedras
del abismo ya nos viene
esta mala condición
sólo nos queda la rumba
y una buena bulería
un bailecito por tangos
y el cante del Camarón
a belembembé a belembembá
tímbero suena la rumba
tímbero suénala ya!!!
Tímbero!!!
Tímbero!!!
La mochila que llevamos
Va cargaita de piedras
Del abismo ya nos viene
Esta mala condición
Sólo nos queda la rumba
Y una buena bulería
Un bailecito por tangos
Y el cante del Camarón
A belembembé a belembembá
Tímbero suena la rumba
Tímbero suénala ya!!!
Tímbero!!!
Tímbero!!!

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

As Araquerar pelas Araquerar: "Para mim...

... é o terror do palco...

Eu gosto de vos ver dançar...

Eu gostaria de poder participar nas Araquerar, mas tenho primeiro de me tratar: tenho fobia ao palco... Fico muda, rígida que nem um bacalhau seco...

Acho-vos uma pilha de graça, criaram cumplicidades inimagináveis entre vós, são pessoas tão diferentes entre si mas é muito bonito de ver o que conseguiram construir... Uma cultura de grupo... Uma identidade! E muita diversão...

... O que vocês conseguiram fazer umas às outras é lindo!

Parabéns!

E continuem que eu cá estarei para lhe bater as palmas com inveja...Olé!


Besitos!"


Myrna



quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

As Araquerar pelas Araquerar: "Como sou de poucas palavras...


... vou só dizer uma coisita:

LIBERDADE!

É o que eu sinto quando estou a dançar."

Joana Arnaut


terça-feira, 2 de dezembro de 2008

As Araquerar pelas Araquerar: Muito mais do que bailar sevilhanas

"Era só para aprender a dançar sevilhanas. Algo que queria fazer há que séculos. As desculpas do costume, da falta de tempo, dos horários…blá…blá…

As aulas da Sónia foram ‘descobertas’ pelo meu marido. Numa tarde de sábado levou-me ao ginásio MSport para saber informações e falar com a professora.

Assisti à aula, encantada com as alunas a dançar de saias compridas e flores na cabeça. A professora baixinha e vestida de preto, explicou-me que em Setembro iria começar com uma turma de iniciadas. Aconselhou-me a comprar uma saia e sapatos próprios para dançar flamenco e sevilhanas. Despedi-me com votos de boas férias e com a promessa de me inscrever em Setembro.

Na primeira aula lá estava eu, com espírito de arranque de ano lectivo, e vestida com uma mega saia preta com dois folhos, de sapatinhos de salto e com piquinhos na sola.

No fim da primeira aula saí toda entusiasmada e com aquela sensação maravilhosa quando começamos a aprender algo novo. Isto vai lá…é preciso é ter calma.

Um mês depois o balanço era aterrador. Os meus pés não obedecem e afinal Darwin tem razão…porque a elegância com que tentava dançar era próxima à de um orangotango. Caramba! E eu que gosto tanto de dança… A coisa não ia lá. Mas forreta como sou e com o dinheiro que tinha gasto na Ballet Etc com a fatiota que estreei no primeiro dia de aulas, jurei a mim mesma que só desistia depois de romper os sapatos e a saia. E até lá, alguma coisa iria aprender.

No meio destas batalhas internas fui metendo conversa com a professora, com as outras alunas. Fui-me ambientando.

Um dia perguntei à professora como é que tinha surgido o gosto pelo flamenco. Se era filha de espanhóis ou se era cigana. Com um sorriso meio tímido, meio orgulhoso e olhos a brilhar respondeu: “Sou cigana”.

Fiquei fascinada. Contei ao meu marido mal saí da aula que a minha professora era cigana e fiquei hiper-curiosa (sou muito cusca e até faço disso profissão). Qual seria a história desta cigana que me ensinava todos os sábados a sua cultura através da dança?

A partir daí comecei a olhar com atenção para ela e não apenas para os pés para aprender a dançar a 1.ª sevilhana. Não correspondia a nenhum dos estereótipos que a comunidade dominante (uma expressão que aprendi a usar com ela) tem dos ciganos e das ciganas. De facto tem uns cabelos bonitos como sempre associamos a todas as ciganas. Mas de resto é tão parecida com as pessoas da sua idade e que não são ciganas. Conduz, trabalha, cuida-se, arranja-se… E mais do que isso, empenha-se em melhorar as condições de vida das suas gentes. E vem até à comunidade dominante, dar a conhecer a sua arte de bailar. Este mesmo baile que Espanha adoptou como seu. Aproxima-se de mim e faz-me chegar até ela, à sua gente, dá-nos um nome romani para nos reunirmos à volta da sua dança e da sua cultura.

O que era para ser um hobbie acabou por ser muito mais do que eu esperava de umas aulas de dança. Gosto de fazer parte das Araquerar por muitas razões. Pelo bem que me faz dançar, pela cumplicidade, por reunir pessoas tão diferentes umas das outras. Mas o que me fascina neste grupo de mulheres lideradas por uma professora cigana é a oportunidade de conhecer muito mais do que o flamenco, essa arte tão difícil de dançar, porque nos pede que o façamos com alma, coração, força, desejo, pés, braços, corpo, tudo o que temos dentro de nós!"

Isa Amaral

sábado, 29 de novembro de 2008

Camino Interior


E esta podia ser a banda sonora da história anterior...



http://www.youtube.com/watch?v=WT_zy9yQK2w


Camino Interior - Chambao

Temores, suspiros, quebrantos
que traen el llanto
Deseos,
esa extraña fuerza que me povoca, aaayayay!!

Palabras,
Que se las lleva el viento y son de mi boca
Pensamientos malos que me envenenan
yo quiero librarme de esta condena

Y encender esa luz
que llevamos dentro...

Destellos, conectan lo puro
que llevo dentro

Sonrisas
calor y dulzura pa mis adentros ooayayay!!
Miradas, que rozan la punta el entendimiento
pensamientos puros queme liberan
lleno de bondad y buenos sentimientos

Y encender esa luz
que llevamos dentro...