quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Um Olé! com Duende para tod@s

E enquanto o Duende vem e não vem para a próxima história... E porque fui surpreendida hoje pelo Duende de outra pessoa...

Tenho agradecido aqui e ali o feedback que vou recebendo do(a)s leitore(a)s deste Caderno. Que o vão fazendo aqui publicamente ou pessoalmente. Vou agora agradecer como deve ser, com a reverência que merecem.

Os vossos comentários levam estas histórias além. Porque lhes acrescentam sempre mais qualquer coisa. Porque me desafiam a escrever sobre temas que não me tinham ocorrido. Porque é gratificante perceber que estas coisas interessam, que geram aprendizagens para outro(a)s e para mim, que induzem reflexão. E, sobretudo, porque geram solidariedades e cumplicidades.

Gracías! Um Grande Olé para todo(a)s! Com Duende!

E agora deixo-vos com um comentário que recebi hoje, anónimo. Não sei de quem é, e talvez isso não tenha importância (a não ser para a desgraçada da minha curiosidade... Que me mata!!!). Escrito com Duende. Escrito por quem sabe/entende o que é ser visitado pelo Duende... Olé!!!


"Últimos preparativos no camarim improvisado, num corrupio contra o tempo. Tic-tac... Tic-tac. Um retoque final na maquilhagem. Tic-tac. Já falta pouco tempo. O coração agita-se e marca o ritmo. Pum-pum... Pum-pum.... Preparam-se para o receber.
Tudo pronto. Tic. É hora! Tac. Dirigem-se ao palco com os nervos a aflorar a pele. Tic-tac... Pum...pum...
“- Será que ele vem?” Pum-pum... Pum-pum.... Pisam o tablao. Tomam as suas posições. Fitam o chão. “- Deve estar a chegar?” Pum-pum... Inspiram um último fôlego, um último trago de coragem. Descolam o olhar do chão e colam-no ao público que aguarda. Pum! É o momento!
Erguem os braços e os seus olhos acompanham esse movimento, uma súplica aos céus para que ele chegue rapidamente, para que as inspire naquele momento. “- Vem depressa. Aqui te aguardamos.”
O coração continua a entoar o seu cântico dentro do peito. Pum-pum... Pum-pum... Pum-pum...Pum-pum... Ao som das guitarras, inicia-se a dança e os golpes fazem gemer o tablao que estremece sacudido pelo vigor dos daquelas chamamento compassado: Pam-pam! Pam-pam! Porque é disso que se trata, de um chamamento, de uma invocação! E de repente, sentem-no! Aí está ele! E todo ele é vermelho e negro. Vermelho fogo, vermelho sangue, vermelho paixão; negro morte. Fogo que aquece o sangue e inflama paixões. Paixões que são a vida e que são a morte.
E ele sobe como uma brisa, gira em torno delas em volteios de vento e rodopios de furacão. Cola-se à sua pele, entranha-se nela, fazendo de cada poro porta de entrada e incendeia-lhes o sangue.
Pum-pum... Pum-pum... Pum-pum... Grita o coração dentro do peito embriagado em labaredas rubras de excitação.
Ele olha-as. Elas sentem-no. Elas olham-se. “- Ele está entre nós. Ele está em nós!” E todos unidos nessa cumplicidade, fundidos numa só alma, continuam a sua dança, vermelha de Amor exaltado pela Paixão. Pam-pam... Pam-pam... Pam! Golpe final, no tablao. Estocada final, negra.


Ele olha-as e esboça um sorriso. É hora de partir. Tic-tac. Chamam-no noutro lugar. Elas sentem-no partir, olham entre si e erguem as mãos aos céus num agradecimento esticando os dedos como que tocando as estrelas, como acariciando aquele que há-de regressar. Elas sabem que sim."

domingo, 9 de novembro de 2008

Hasta Siempre!

E quem sabe? Para o ano na Festa bailamos esta? Vamo' ya! Olé!!


quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Não há Festa como esta!


Se me dissessem na minha primeira aula de Sevilhanas que dois anos mais tarde iria bailar à Festa do Avante, não teria acreditado! Mas aconteceu…

As Araquerar foram convidadas para ir bailar à Festa do Avante 2008. Dois espectáculos. O contacto surgiu através de mim, fui eu que tratei de tudo! Assim funcionam Las Araquerar! No dia em que recebi pelo correio uma cartita da Festa do Avante dirigida às Araquerar e a confirmar a nossa participação, assinada pela Dótora do Arraial, percebi que não estava a sonhar. Era a sério!!! (Tenho o bendito papel em cima da mesa da sala, dobrado e desdobrado tantas vezes, quase a rasgar-se, e que vai resistindo às investidas da gata… Vou emoldurar!)

O dilúvio a anunciar o fim do mundo que aconteceu na sexta-feira não fazia prever o fim-de-semana de sol radioso que aconteceu. De propósito para nós, claro! O S. Pedro com vontade de nos ver actuar. Nesse dia não foi possível fazer o sound check, que é como quem diz, ver se o CD funcionava. As aparelhagens em curto-circuito. Logo se vê! Alguma coisa há-de acontecer! Nada que demova Las Araquerar!!!

Sábado, 18 horas, Palco Setúbal. O som perfeito! O palco grande, baixinho. A pedir para saltarmos para a relva em frente, para dançar com o público. Ou para as pessoas virem ao nosso encontro. Fomos uma hora mais cedo para o camarim do Palco Setúbal, um barracão de madeira, relvado. Sem espelho. Lá dentro, o caos! Artistas a despirem-se, instrumentos musicais por todo o lado. As nossas roupas espalhadas. A improvisarmos espaços de maquilhagem. A confusão era tal que quase temi que o grupo de teatro que actuou a seguir fosse caracterizado de sevilhanas…

O espectáculo. Inebriante! Quase perfeito. Um engano aqui, outro acolá. Lembro-me que uma de nós levou à letra o poema do José Régio: “Não sei por onde vou, Não sei para onde vou, Sei que não vou por aí!”. E resolveu inovar o “Caminito”… O público a responder. A invadir o palco e a bailar connosco. Não me apetecia sair do tablao. Por mim continuava… Não há Festa como esta! Olé!!!

Antes do merecido jantar ainda fomos espreitar o Espaço Mulher onde seria o espectáculo do dia seguinte. Ficámos apreensivas… A ladear a entrada da Medideira, em plano inclinado, um espaço relvado, sem palco, sem estrado. Bailar na relva? Impossível! Não se ouve o som dos pés. Os saltos dos sapatos enterram-se, ainda partimos um tornozelo… Então e no alcatrão? Muito difícil, em plano inclinado, no meio da estrada… E agora? Desistimos? Logo se vê! Alguma coisa há-de acontecer! Nada que demova Las Araquerar!!!

Domingo, 16 horas, Espaço Mulher. Fomos uma hora mais cedo para o camarim do Palco Arraial, um barracão de madeira, relvado. Com espelho. Lá dentro, o caos! Tambores, bombos, por todo o lado! Os Pauliteiros de Miranda a dizerem-nos que também lá estavam…

O sítio do espectáculo de Domingo ficava distante do Palco Arraial. Atravessámos metade do recinto da Festa, vestidas com os nossos trajes flamencos. Nos pés, chinelas para não estragarmos os sapatos. Nos meus pés, chanatas do Lago Titicaca, feitas de pneus velhos, que duram uma vida inteira, compradas umas horas antes, a dois euros, que podíamos dar o que quiséssemos, a ajudar os povos distantes dos Andes. A Fiona a contagiar-me… Que não conseguiu comprar umas para ela, enquanto experimentava um avental do Perú.

Só pelo caminho percorrido nesse dia até ao Espaço Mulher, teria valido a ida à Festa. As muitas pessoas a interagirem connosco, nós a corresponder. Os Olés!! de uns e outros pelo caminho… Um cortejo de cor e alegria. A comunicação… As Araquerar! E não há Festa como esta!

Decidimos no momento dançar no alcatrão inclinado da Medideira. Os mastros das bandeiras a rodearem-nos. A música popular portuguesa nos altifalantes. E no Espaço Mulher, a ordem das músicas diferente do CD. Eu, em língua gestual, a entender-me com o Camarada do som. As muitas e muitas pessoas a passarem enquanto dançávamos. A pararem. Algumas a fazerem-nos perguntas, enquanto sapateávamos e braceávamos. As pessoas próximas. O Duende a espreitar… E nós a improvisar as coreografias num tablao também ele improvisado. A primeira música bailei-a em cima de uma bosta. A sapatear “Ay como el aguaaaa…” Aquela já dali não sai, os Camaradas bem podem agradecer-me!!!

A Sãozinha de garrafas de água nos braços… A Dótora do Arraial a tirar fotografias… A Myrna e a Clara a juntarem-se à festa, em solidariedade… O público a improvisar rumbas… De passagem… Senti-me bem… Senti-me cigana! Foi o espectáculo onde mais me senti… Não há Festa como esta! Olé!!!

Já o escrevi antes. Somos um grupo de mulheres, idades diversas, profissões diferentes, percursos de vida distintos. Cada uma com as suas convicções políticas. O que nos levou até ali foram as cumplicidades que temos umas com as outras. E cada uma de nós terá vivido a Festa à sua maneira…

Tenho ido a quase todas. Cada uma delas me marca, por este ou por aquele motivo. Esta Festa foi diferente. Pelos mojitos clandestinos “a La Payita”, aos quais só faltou mesmo o avental. Pelas imagens que guardo da Sãozinha a falar ao telefone da Loja dos Trezentos ou a tocar o pesadelo de um bombo e um gaiato de 11 anos a dizer-lhe “Isto é fácil, já estou habituado!”, com a pronúncia do Norte. O Palco Arraial…

… E as Araquerar. A Fiona a enfiar-se em todas as Feiras da Ladra que encontrava. A Joana a abanar a cabeça, a pensar “estas cotas são doidas!” e a contar os minutos que faltavam para ir ter com os amigos. A Isa, a desdobrar-se numa míriade de Isas para estar em todo o lado ao mesmo tempo e a responder à altura a todos os papéis que se esperam dela (grande Mulher! Olé!). A Carla a preparar-se para uma nova etapa da vida e a não poder sapatear, mas a jalear com tal jondura que a sentimos no palco (ela não bailou, mas os olhos fizeram as coreografias todas!). Eu, a bailar durante dois dias, em qualquer lado, assim houvesse música, fosse qual estilo fosse. E a Sónia… A experimentar a Festa. A observar, a apreender. A ir a tudo. A viver o que dantes vivia pela janela de casa. A vê-los passar…

A Liberdade. Tantas vezes analisada, debatida, sentida, vivida na Festa. Nós a fazermos o mesmo. A liberdade de expressão, a liberdade no nosso país, a liberdade nos países latino-americanos... Cuba, Che, Fidel, Chile, Allende… Eu a contar o que sei… O que penso… O que sinto… E a bailar em qualquer sítio, de improviso. E a liberdade de estar na Festa, depois de muitos anos a ver da janela…

A transculturalidade. A comunicação. O afecto. Uma Cigana a deixar a Festa cantando o Avante Camarada. Uma Payita na Festa bailando de improviso em qualquer lado. E penso… Nunca tive uma Festa como esta!

(Esta história é para a Sãozinha que acredita no que está para lá do óbvio… Uma Mulher de Liberdades. Um Olé! Com Duende…)

domingo, 2 de novembro de 2008

Ai, Portugal, Portugal...


“A vida não é a que cada um viveu, mas a que recorda e como a recorda para contá-la.”

Gabriel García Márquez


A Faculdade terminada. O canudo numa mão, o desemprego na outra. Nunca tive jeito para estar sossegada. Fui trabalhar voluntariamente para o Instituto de Apoio à Criança (IAC). Bairro da Ajuda, Lisboa. Num projecto que se chamava “Acções de ligação à comunidade”. Eu, mais uma vez a tropeçar no comunitário. Coincidências! Ou talvez não…

Estávamos em 1996. Em Lisboa conhecia as estações do Metro e pouco mais. Alcântara, a passagem pelo Casal Ventoso, visto cá de baixo, pela janela do autocarro. Aconteciam dias diferentes, quando tínhamos a companhia de “arrumadores” que viajavam até à Capital. Quarenta e cinco minutos num frenesim… A saída em Alcântara, a subirem a rua, rapidamente. À procura daquilo que lhes embalaria o resto do dia…

O Bairro da Ajuda. Missão: acompanhar os voluntários que faziam a animação dos recreios nas escolas do Bairro, sinalizar situações de absentismo e abandono escolares, construir pontes entre a família e as escolas.

O bairro social. As escolas. As ruas. As pessoas. Não sei se consigo recordar os nomes. Mas lembro-me dos cheiros, das cores. Dos professores, dos voluntários, das crianças. Do Centro de Saúde. Das pastelarias, das lojas de penhores. Das ruas a subir e a descer. Como se fosse hoje.

O bairro social. Caixotes brancos, de três andares, escadas estreitas, a roupa estendida na corda, os átrios ocupados com os restos da vida da qual não nos conseguimos separar: uma cadeira partida, a caixa de madeira da fruta, uma bicicleta sem rodas, o candeeiro de mesa sem abajour… Caixotes brancos, milimetricamente iguais, a dizerem-nos que a igualdade existe, na pobreza e na exclusão social… No meio dos prédios, as barracas: o “bairro” dos ciganos.

A escola. A partilhar o muro com as árvores de Monsanto. As crianças sujas, a brincarem à macaca e ao elástico. O sorriso rasgado na cara e o convite pronto para nos juntarmos à brincadeira. Do outro lado do muro, branco e pouco mais alto que eu, as mães encostadas a prostituírem-se, para que nesse dia a última refeição não fosse o leite distribuído na escola. Os preservativos e as seringas espalhados, num parque que deveria ser cenário de explorações e aventuras dos Robins dos Bosques de palmo e meio.

A outra escola. No Casalinho da Ajuda. Perdida num bairro de moradias, as cortinas de renda nas janelas, as loiças de feira a decorarem as entradas, o estuque a descoberto, os esgotos a céu aberto. Duas crianças no refeitório, a comerem sofregamente. Com as mãos. Como se o mundo fosse acabar já a seguir. Perguntei a uma professora porquê. Porque não utilizavam os talheres, colocados ao lado do prato de alumínio? Porque aquela era a primeira refeição do dia. E a única, provavelmente.

E uma rua. Algures por aqui. Casas baixinhas, coladas umas às outras, brancas e azuis. Porta sim, porta não, a tuberculose escondida lá dentro. À espera do próximo, insidiosa.

Um dia, a responsável pelo projecto diz-nos que temos de ir falar com uma família cigana porque uma das meninas estava a faltar à escola. Fiquei catatónica! Ciganos? Mas pode-se falar com eles???

Nunca tinha tido qualquer contacto com a comunidade cigana. Cresci na convicção de que os ciganos vivem num outro mundo, que não se cruza com o nosso. E quando tal acontece, nunca é por bons motivos. Ou é para nos roubarem ou para nos agredirem. De navalha na mão. Cresci a pensar que se visse um cigano, facilmente reconhecível porque anda sempre de preto e cheira mal, a primeira coisa que deveria fazer era atravessar para o outro lado da rua.

Não se julgue a minha família com muita severidade. E já aqui escrevi sobre ela. No que diz respeito aos preconceitos sobre ciganos, será como a maioria. Mas ensinou-me a pensar por mim, a questionar tudo, a enfrentar os desafios, a ir à descoberta. A não ter medo do diferente. A ser solidária. E isso fez a diferença!

A primeira vez. Os ciganos. Um bairro dentro de outro bairro. As barracas. Numeradas pelo Programa Especial de Realojamentos (PER). Um bairro à espera de um outro futuro: casas novas, num bairro de caixotes, milimetricamente iguais. Um bairro de barracas, ligadas umas às outras por passadeiras, construídas com tábuas de madeira. Os afectos ali, para quem os quisesse interpretar.

A família cigana. Da barraca nº44. A mesa de madeira e o homem da família a almoçar, sentado à mesa. Batatas com salsa e azeite. A mulher, em pé com o filho mais novo ao colo, um bebé de meses. A dar-lhe batatas com salsa e azeite. Nos olhos, a esperança. Na cara, os sorrisos rasgados. No discurso, o convite à conversa. A miúda, transgressora na escola? Doente. Amanhã voltaria. E voltou. Se porque melhorou, se porque nós visitámos a família, é coisa que nunca vou saber. Mas voltou.

E fiquei ali fascinada. Pelo acolhimento. Não tinha sido roubada nem esfaqueada. Uma família, preocupada com o futuro, os olhos cheios de esperança, num PER que havia de chegar. Um bebé a comer batatas com salsa e azeite. E nós a seguirmos rigorosamente as dietas prescritas pelos pediatras. O leite primeiro, a seguir o cerelac, as sopas… Só depois, muito depois, as batatas. E com salsa e azeite? Bem, o melhor é terem cartão de eleitor primeiro!!!

Mais tarde, pelo Nómada, havia de perceber que tudo isto são manifestações de pobreza. Mas naquele momento estava fascinada! Os ciganos eram completamente diferentes daquilo que eu tinha na cabeça! Desconstruir preconceitos. Foi o princípio de um caminho…

Quando penso nesta fase da minha vida, não consigo deixar de me lembrar d”Os Esteiros”, do Soeiro Pereira Gomes. Não sei porquê. Pelas crianças sem infância? Não sei… Terei de reler o livro. Mas àquela imagem de sofrimento e pobreza das famílias não ciganas, contrasta-me sempre a imagem de esperança e pobreza das famílias ciganas. Iguais na pobreza e na exclusão social.

Deixei o IAC no início de 1997, se a memória não me falha. Nunca mais voltei ao Bairro da Ajuda. Sei que as famílias do bairro de barracas foram realojadas em caixotes, prédios milimetricamente iguais.

Sei que foi construído um Pólo Universitário na Ajuda, para reabilitar a zona, mas que os transportes públicos circumnavegam o Bairro e que os estudantes são assim poupados à dor de terem de olhar de frente o País real.

Sei que o Casal Ventoso acabou. Agora o tráfico e o consumo de droga espalham-se por Lisboa. Pelo Bairro da Ajuda? Provavelmente. As meninas que conheci nos recreios prostituem-se no muro da escola? Para responderem ao frenesim que as invade diariamente? À procura daquilo que lhes embala o resto do dia? Para darem de comer aos filhos?

Quando fui para o IAC, o PER estava no seu início e davam-se os primeiros passos no Rendimento Mínimo Garantido (RMG). Concorde-se ou não com a medida, a verdade é que o RMG pôs a nu a pobreza e a miséria deste País à beira-mar plantado.

Trabalho em Setúbal, há dez anos, em contextos semelhantes. As barracas acabaram, ou são casos isolados. Só muito recentemente voltei a ouvir falar em situações de pobreza extrema. A economia global a reflectir-se. Os “ajustamentos” no RMG a reflectirem-se. Num País do Hemisfério Norte. Desenvolvido.

Passada uma década, continuo a ver professores, educadores, animadores, psicólogos, sociólogos, antropólogos, todas as expressões académicas na área social, a preocuparem-se, a denunciarem, a serem solidários. A resistirem… Um Olé com Duende para todos eles!!!!

E para todos aqueles “senhores” que enchem a boca a falar do “parasitismo social” que existe no nosso País: A fome existe! A tuberculose existe! A xenofobia e o racismo persistem! E pior que isso… A ignorância existe! Mas essa… É vossa!!!


(Esta história é para a Educadora Maria João Malho, responsável em 1996 pelas “Acções de ligação à comunidade” do IAC. Se algum dia ler isto, quero que saiba que aquilo que aprendi com ela ainda hoje está presente.)


Este é um Caderno de Histórias que entrecruza o Flamenco com a minha experiência com a comunidade cigana. As músicas "tocadas" aqui seriam, à partida, músicas flamencas. Mas hoje é só esta que me apetece ouvir…


http://www.imeem.com/people/vSU66r/music/wvAeIABq/jorge_palma_portugal_portugal/


Portugal, Portugal

Tiveste gente de muita coragem
E acreditaste na tua mensagem
Foste ganhando terreno
E foste perdendo a memória

Já tinhas meio mundo na mão
Quiseste impor a tua religião
E acabaste por perder a liberdade
A caminho da glória

Ai, Portugal, Portugal
De que é que tu estás à espera?
Tens um pé numa galera
E outro no fundo do mar
Ai, Portugal, Portugal
Enquanto ficares à espera
Ninguém te pode ajudar

Tiveste muita carta para bater
Quem joga deve aprender a perder
Que a sorte nunca vem só
Quando bate à nossa porta

Esbanjaste muita vida nas apostas
E agora trazes o desgosto às costas
Não se pode estar direito
Quando se tem a espinha torta

Ai, Portugal, Portugal
De que é que tu estás à espera?
Tens um pé numa galera
E outro no fundo do mar
Ai, Portugal, Portugal
Enquanto ficares à espera
Ninguém te pode ajudar

Fizeste cegos de quem olhos tinha
Quiseste pôr toda a gente na linha
Trocaste a alma e o coração
Pela ponta das tuas lanças

Difamaste quem verdades dizia
Confundiste amor com pornografia
E depois perdeste o gosto
De brincar com as tuas crianças

Ai, Portugal, Portugal
De que é que tu estás à espera?
Tens um pé numa galera
E outro no fundo do mar
Ai, Portugal, Portugal
Enquanto ficares à espera
Ninguém te pode ajudar

Ai, Portugal, Portugal
De que é que tu estás à espera?
Tens um pé numa galera
E outro no fundo do mar
Ai, Portugal, Portugal
Enquanto ficares à espera
Ninguém te pode ajudar


terça-feira, 28 de outubro de 2008

A Compás - O Fandango

A propósito de uma música que quero partilhar convosco, inicio aqui um conjunto de histórias que terão como tema o Flamenco, apresentado não na perspectiva do vivido, mas da didáctica: o que tenho aprendido eu sobre o Flamenco?

A origem… O que distingue os palos - porque é isto uma Rumba e aquilo uma Bulería… O traje, os adereços… O cante, o baile, o toque… Ayayayyyyy…

Pois é! É um mundo fascinante, mas muito difícil… Quanto mais leio sobre o assunto, mais baralhada ando. Mas vou escrever na mesma. Quem sabe um dia destes um Sábio desta arte não leia as minhas histórias e resolva dar-me uma ajudinha? ;)

Em Fevereiro deste ano, as Araquerar rumaram à Capital para fazer uma workshop com “El Maleno” (baile), “El Pulga” (toque) e Joaquín Moreno (cante), na Pró.Dança. Duas tardes a bater palmas, porque fazia parte da aprendizagem, e porque eles mereciam, claro!

No final daquele fim-de-semana, não sabia fazer a pequena coreografia que nos ensinaram (ainda hoje não sei…), não sabia “descansar” a preparar “a subida” para o “remate”, como o Maleno… Mas uma coisa vos garanto que aprendi: “En el Flamenco, lo más importante es lo compás!”, que nos disse o Pulga logo no início.

Os diferentes estilos tradicionais do cante flamenco designam-se como “palos”, que são classificados de acordo com o seu compasso rítmico, a sua jondura (intensidade), o seu carácter festivo ou sério, a sua origem geográfica, os temas do cante…

O compasso é uma unidade, frase rítmica, com acentos específicos. Certo? Ora isto significa que, por exemplo, no Tango, que foi o que aprendi e por isso é mais fácil explicar, falamos de um compasso de 4 tempos, onde os tempos mais fortes – acentos - são o primeiro e o terceiro. A frase rítmica completa é de oito tempos e as palmas podem acentuar tempos diferentes ou em contratempo… Mas isso, fica para outro dia… Ufa! Agora vou descansar um bocadinho… Como o Maleno… Agarrada à bengala, a sapatear até ao desespero (meu, claro!, que ele parecia-me bem…).

Os palos organizam-se em compassos de 3, 4 e 12 tempos. E em função dos critérios atrás apresentados, organizam-se em famílias. Hoje vou escrever sobre essa grande família que são OS FANDANGOS. A origem do Fandango é curiosa porque não surge com o Flamenco, mas aparece na História como um baile popular, expressão do Folclore da Península Ibérica, que terá sido “aflamencado”.

Existem referências a uma forma de baile, com semelhanças com o Fandango, já na Grécia Antiga e Império Romano, onde seria dançado com uma espécie de castanholas. A sequência harmónica descendente (lá menor, sol maior, fá maior, mi maior), típica do Fandango, era já utilizada no Barroco. Hã??? As coisas que eu sei! (Deste parágrafo, por incrível que pareça, o que eu entendo menos mal são as notas de música!!)

Nos finais do século XVIII, era uma dança popular em diferentes regiões de Espanha, País Basco e Portugal. No início do século XIX, a Andaluzia “aflamenca” o Fandango, que hoje constitui um dos mais importantes palos do Flamenco, com inúmeras derivações.

O Fandango é um palo melódico, de movimento vivo, de compasso ternário, com versos octassilábicos e que utiliza com frequência as castanholas. É o que mais variações apresenta, provavelmente. Vou apresentar a seguir as diferentes derivações do Fandango. A estrutura que me pareceu mais simples. Mas, tal como o Fandango, os estudiosos do assunto também variam um bocadinho entre si. Ora aqui vai:

  • Fandangos de Huelva: Locais e Personalizados;
  • Fandangos de Málaga: Malagueñas, Rondeñas, Jaberas, Verdiales;
  • Fandangos de Levante: Granaínas, Mineras, Cartageneras, Tarantas, Tarantos.

Sobre as diferenças entre cada um deles… Bem, fica para outra história! Agora, vou descansar. Pego na bengala e sapateio… :D

Deixo-vos com a frase rítmica base do Fandango – LO COMPÁS!

1 2 3 1 2 3 1 2 3 1 2 3

1 2 3 4 5 6 1 2 3 4 5 6

x x x x x 0 x x x x x 0 (Palmas)


E agora, é simples! É só ouvir a música e bater as palmas! A compás! Clap, Clap, Clap….

Vicente Amigo – Mensaje. Liiiiiiiindo… O Fandango! Olé!!!






sábado, 25 de outubro de 2008

Payos, Paillos e Senhores


As pessoas comunicam e o mundo avança. Esta ideia tem sido escrita noutras histórias. E vou repetir-me e repetir-me… Intencionalmente. Quando partimos à descoberta do Outro Diferente, criamos espaços comuns de entendimentos, de diálogos. A rede de afectos constrói-se, as barreiras caem, as pessoas aumentam e o mundo avança… Araquerar… Conversar, falar…

As formas que temos para comunicar uns com os outros são muitas e diversas. Temos a linguagem verbal, oral ou escrita, onde o código utilizado é a palavra. E com as palavras dizemos o que sentimos, o que pensamos. Como eu estou a fazer agora. A partilhar uma ideia, a procurar entendimentos com vocês, aí desse lado.

E temos a linguagem não verbal, onde os códigos podem ser o desenho, os sons, a dança, a expressão corporal. Se me inclino para vocês, estou a ouvir-vos, se franzo o sobrolho, o assunto é de evitar, se abro os olhos… Bem, o melhor é fugir!!!

Utilizamos os códigos, verbais e não verbais, em contextos específicos, formais, académicos, sociais, afectivos. Porque os códigos legitimam, igualizam ou relacionam afectivamente um determinado grupo de pessoas, comunidade ou país. Porque são uma forma de definir ou de dar identidade a um grupo. É o caso das culturas urbanas, por exemplo. Io bro! Tá-se!

A Linguística interessa-me mas o meu conhecimento sobre ela é limitado e, por isso, fico-me por aqui. É através desta ciência que sabemos que o Povo Cigano tem a sua origem no norte da Índia. E é através do estudo da Língua que supomos o seu percurso pela Europa e pelo resto do mundo. Pela língua. Pela comunicação…

Supomos que terão imigrado por volta dos séculos X e XI e que a sua rota mais provável tenha sido da Índia para a zona da Antiga Pérsia. Os escassos registos históricos que existem situam os ciganos no Irão, Iraque ou Egipto. Daí terão seguido para os Balcãs. Terão chegado à Península Ibérica por volta do século XV.

O primeiro documento da entrada dos ciganos em Espanha, diz que se designavam a eles próprios como “ruma calk”, que significa “homem dos tempos”. Com eles trouxeram a música, as palmas, a batida dos pés, as palavras “felco” e “mengu”, que significarão “camponês” e “fugitivo”. Flamenco!

E sabemos isto porque o romani, a Língua dos ciganos, tem semelhanças com o sânscrito e o páli, línguas utilizadas na Índia. Acresce a questão das tradições. O sistema de castas indiano apresenta semelhanças com a vivência em comunidades familiares pelos ciganos.

Quando comecei a pensar na forma virtual de apresentar este Caderno, decidi seleccionar algumas das palavras do Léxico Romanon-Calon, elaborado pelo Nómada, e divulgá-las. Pensei que seria talvez um esforço em vão porque poucas pessoas, para além dos académicos da Linguística, se interessariam por estas coisas. E então lembrei-me de transformar as tradicionais “etiquetas” em “Palavras Mágicas” e utilizar a Língua dos Ciganos nas histórias. Seria uma tentativa para tornar o Léxico num instrumento dinâmico, uma fonte de comunicação entre mim e vocês.

Os ciganos não gostam que os não ciganos entendam o romani. Porque é uma linguagem própria e exclusiva, que lhes permite manterem-se unidos, vivos e com as suas tradições preservadas. Estamos a falar de uma comunidade que tem inscrita na sua História séculos de perseguições, forçados a caminhar de território em território, para garantirem a sua sobrevivência. E esta comunidade sobreviveu porque se fechou. E o romani é um código que lhes dá uma Identidade.

Eu sabia isto mas insisti em divulgar o romanon-calon. Chamei-lhe “Palavras Mágicas” e não foi por acaso. Tal como o “Abre-te Sésamo” do Ali Babá o cobriu de tesouros, descodificarmos o romani abre o caminho da comunicação, do entendimento. Constrói afectos. Destrói barreiras. Aumentamos. E o mundo avança…

Não é fácil descodificar o romani. Dependendo da zona geográfica onde se estabeleceram, os diferentes grupos ciganos assimilaram os costumes e tradições dos locais. E isto reflecte-se na linguagem. Na Península Ibérica, falamos de romanon-calon ou romani-caló…

E por serem uma cultura ágrafa, sem forma escrita, a História dos Ciganos é transmitida oralmente, de pais para filhos. Os conhecimentos, as tradições, a Língua, passados de geração em geração, e, simultaneamente, a História a adaptar-se ao local. E por isso encontramos diferentes maneiras de representar a mesma palavra. Quando dizemos payos, paillos, pailhos, senhores, gadjé, estamos sempre a falar dos “não ciganos”, brancos. Para os "não ciganos" negros temos a palavra “calhardon”, que também significa “café”.

E por tudo isto, não desisti de colocar o Léxico no Caderno. Porque o romani faz parte da História de um Povo, da sua memória colectiva, que deve ser preservada, estudada, divulgada. Porque também serve para nos entendermos e comunicarmos.

E percebi que editar o Léxico, as Palavras Mágicas, não tinha sido um esforço em vão, quando um destes dias um amigo, para me dizer que ia ao dentista, me escreve a seguinte mensagem:

“Bom… Vou narrar-me. O senhor doutor vai ficar barbaló e eu chororó. Asi es la pacha! Zuenos! Hasta Mañana!”


A inspiração ou Duende para esta história nasceu da comunicação com um amigo, ainda mais cromo que eu, que suspeito não seja deste planeta… Foi em código, para só ele perceber… ;)

E para os mais curiosos, deixo aqui alguns links onde poderão aprender muitas coisas interessantes sobre a História do Povo Cigano. E fica a promessa (mais uma!) de voltar a este tema numa outra história… E para os mais desconfiados, as promessas estão a ser anotadas no meu Caderno de papel…


http://www.unionromani.org/pueblo_es.htm

http://iceweb.org/cadernos_ice5.html

http://iceweb.org/cadernos_ice9.html

http://www.agencia.ecclesia.pt/pub/33/noticia.asp?jornalid=33&noticiaid=59514

http://dancasdomundo.no.sapo.pt/dcigana.htm


terça-feira, 21 de outubro de 2008

Coincidências...


Prólogo

Quando olho para trás, para a minha infância e juventude, não me recordo da presença do Flamenco na minha vida. As duas únicas excepções que assinalo são as castanholas e o xaile que um tio me trouxe de Espanha, que dei a alguém numa das minhas febres de arrumações, e o ter ido a Sevilha numa excursão com a família, da qual apenas registo na minha memória pombas, pombas e mais pombas…

Capítulo 1 – Hablas Castellano?

A América Latina sempre puxou por mim. Pela música, pela literatura, pelas constantes revoluções sociais. Sempre gostei do castelhano, especialmente com o “sonido” cubano ou chileno ou peruano… Uma vez, comprei um curso de espanhol, daqueles do Planeta Agostini. E durante algumas semanas andei entretida com as cassetes e os cadernos de exercícios: “Yo moro en la calle de Las Olivas, numero diez”. Hoje, o interesse pelo castelhano facilita-me a compreensão das músicas flamencas. E tenho no computador links para dicionários. Tenho de perceber tudo, embora o flamenco mais jondo seja difícil porque come as consoantes e arrasta as vogais e usa expressões do calón. A minha mãe costuma dizer-me que, quando eu era pequena, era “muita espanhola” a falar. Deve ser por isso…

Capítulo 2 – O Duende de Lorca

As conversas sobre a Guerra Civil Espanhola. “Por quem os sinos dobram” e o Hemingway. As espreitadelas furtivas nos livros em cima da mesa-de-cabeceira, sentada na cama. Sentia-me quase clandestina, a invadir um espaço que não era meu. E ali estava ele, Frederico García Lorca. Anos mais tarde, numa das muitas deambulações pela net a descobrir o Flamenco, encontro o conceito de Duende. E reencontro-me com Lorca. E durante muito tempo procurei o texto completo “Teoria e Prática do Duende”. Quando finalmente o descobri, li-o avidamente, como se fosse um amigo perdido. Imprimi-o e li outra vez. Reli-o e sublinhei. O Duende, que não se explica, estava explicado!

Capítulo 3 – Vicente Amigo

Eu teria os meus vinte anos. A Feira de Sant’Iago ainda “morava” no centro da cidade. Sair à noite com os amigos. Tropeçámos num concerto ao ar livre. Vicente Amigo. Não sabia quem era. Mas fiquei agrafada ao chão… Rendida. Nos anos que se seguiram, fui ouvindo aqui e ali, por acaso, outros nomes do Flamenco. O Al Di Meola, o Fosforito e, sobretudo, Paco de Lucía. E os incontornáveis Gipsy Kings, nas discotecas. Passou muito tempo sobre aquele primeiro momento. Ouvia os cds das aulas de flamenco e começava a descobrir o flamenco alternativo. Um amigo mostrava-me música, atrás de música. E com um sorriso malandro, a bater as palmas, disse-me: “Este é o Vicente Amigo. Deves conhecer…”.

Capítulo 4 – O Traje Flamenco

(Advertência: Este capítulo pode conter linguagem eventualmente chocante.)

Sempre me fez muita confusão as crianças que no Carnaval se mascaravam de “Espanholas”. Aqueles vestidos de cores berrantes, os folhos, muito pintadas, com o sinal no queixo… Chamava-lhes “putas espanholas”. Anos mais tarde, num dos primeiros espectáculos, quase chorava porque as outras payitas insistiam para que me maquilhasse. E uma delas vem ter comigo, semi-esborratada, e diz-me num desabafo: “Pareço uma puta mexicana!”. A relação estava estabelecida e a conversa iniciava-se sobre os preconceitos que nos inibem a expressão completa do nosso EU. Hoje, se não pinto pelo menos os olhos para um espectáculo, sinto-me despida. Ouço-me dizer coisas como “eu quero a minha saia vermelha às bolas pretas!”… Eu, que nunca suportei bolas! E apercebo-me de que o vermelho foi desde sempre a minha cor preferida. E que desde sempre precisei de ir às compras na companhia de alguém que me controlasse a compulsão de trazer tudo o que existe em vermelho e preto…

Capítulo 5 – As Zíngaras

Cinco mulheres. Em formação. A rir e a brincar com os estereótipos da sua própria condição. E com isto a dizerem-nos que sabem como nós, payos, os pensamos a eles, Ciganos. Foi assim o meu primeiro encontro com as mulheres que algum tempo depois fundariam a primeira e única associação de mulheres ciganas do país: a AMUCIP. Volto a reencontrá-las noutros momentos, pelo Nómada. Participo em workshops de flamenco com as Zíngaras, grupo de baile flamenco nascido na AMUCIP. Quatro mulheres a dançar. E eu agrafada ao chão... Rendida. “A Sónia das Zíngaras começou a dar aulas em Setúbal. Vamos experimentar?” E fui. E hoje faço parte de um grupo que nasce desta espiral de encontros. E danço com ela, em cima do mesmo tablao. E peço-lhe reuniões para que ela me ensine formas de seduzir e de me aproximar às comunidades ciganas dos Bairros…

Capítulo 6 – Granada: Paraíso cerrado para muchos (Lorca)

Estive em Granada. Mil novecentos e noventa e seis. Passeei pelas ruas. Bebi chás nos bairros árabes. O entardecer nas varandas. O Alhambra, inacessível. Marcações com meses de antecedência. A olhar para ele… As Cuevas. O meu primeiro espectáculo de Flamenco. A sala branca, as cadeiras encostadas à parede. O licor de manzana. Os bailaores a três palmos dos nossos olhos. Fiquei agrafada à cadeira… Rendida. Gostava de voltar a Sevilha, mas a Granada ia já! E voltava, uma vez e outra… Há pouco tempo, em mais uma das minhas aventuras na net à procura do Flamenco, descobri uma imagem de um Duende. E pensei que se algum dia fizesse uma tatuagem era aquela imagem. Eu que sempre disse que tatuagens nunca! Demasiado definitivo! Uma imagem de um Duende, pintado numa parede, de uma rua, em Granada…

Epílogo

E de repente lembro-me de uma frase dita num filme que vi há muitos anos, do Joaquim Leitão: “As coincidências são acasos com sentido…”.


(Esta história foi escrita para a minha amiga Mafalda, que lhe inspirou o título e o tema. E porque não lhe conto uma história há muito tempo… A Mafalda, uma artista das ciências exactas. Por coincidência…)