As pessoas comunicam e o mundo avança. Esta ideia tem sido escrita noutras histórias. E vou repetir-me e repetir-me… Intencionalmente. Quando partimos à descoberta do Outro Diferente, criamos espaços comuns de entendimentos, de diálogos. A rede de afectos constrói-se, as barreiras caem, as pessoas aumentam e o mundo avança… Araquerar… Conversar, falar…
As formas que temos para comunicar uns com os outros são muitas e diversas. Temos a linguagem verbal, oral ou escrita, onde o código utilizado é a palavra. E com as palavras dizemos o que sentimos, o que pensamos. Como eu estou a fazer agora. A partilhar uma ideia, a procurar entendimentos com vocês, aí desse lado.
E temos a linguagem não verbal, onde os códigos podem ser o desenho, os sons, a dança, a expressão corporal. Se me inclino para vocês, estou a ouvir-vos, se franzo o sobrolho, o assunto é de evitar, se abro os olhos… Bem, o melhor é fugir!!!
Utilizamos os códigos, verbais e não verbais, em contextos específicos, formais, académicos, sociais, afectivos. Porque os códigos legitimam, igualizam ou relacionam afectivamente um determinado grupo de pessoas, comunidade ou país. Porque são uma forma de definir ou de dar identidade a um grupo. É o caso das culturas urbanas, por exemplo. Io bro! Tá-se!
A Linguística interessa-me mas o meu conhecimento sobre ela é limitado e, por isso, fico-me por aqui. É através desta ciência que sabemos que o Povo Cigano tem a sua origem no norte da Índia. E é através do estudo da Língua que supomos o seu percurso pela Europa e pelo resto do mundo. Pela língua. Pela comunicação…
Supomos que terão imigrado por volta dos séculos X e XI e que a sua rota mais provável tenha sido da Índia para a zona da Antiga Pérsia. Os escassos registos históricos que existem situam os ciganos no Irão, Iraque ou Egipto. Daí terão seguido para os Balcãs. Terão chegado à Península Ibérica por volta do século XV.
O primeiro documento da entrada dos ciganos em Espanha, diz que se designavam a eles próprios como “ruma calk”, que significa “homem dos tempos”. Com eles trouxeram a música, as palmas, a batida dos pés, as palavras “felco” e “mengu”, que significarão “camponês” e “fugitivo”. Flamenco!
E sabemos isto porque o romani, a Língua dos ciganos, tem semelhanças com o sânscrito e o páli, línguas utilizadas na Índia. Acresce a questão das tradições. O sistema de castas indiano apresenta semelhanças com a vivência em comunidades familiares pelos ciganos.
Quando comecei a pensar na forma virtual de apresentar este Caderno, decidi seleccionar algumas das palavras do Léxico Romanon-Calon, elaborado pelo Nómada, e divulgá-las. Pensei que seria talvez um esforço em vão porque poucas pessoas, para além dos académicos da Linguística, se interessariam por estas coisas. E então lembrei-me de transformar as tradicionais “etiquetas” em “Palavras Mágicas” e utilizar a Língua dos Ciganos nas histórias. Seria uma tentativa para tornar o Léxico num instrumento dinâmico, uma fonte de comunicação entre mim e vocês.
Os ciganos não gostam que os não ciganos entendam o romani. Porque é uma linguagem própria e exclusiva, que lhes permite manterem-se unidos, vivos e com as suas tradições preservadas. Estamos a falar de uma comunidade que tem inscrita na sua História séculos de perseguições, forçados a caminhar de território em território, para garantirem a sua sobrevivência. E esta comunidade sobreviveu porque se fechou.
Eu sabia isto mas insisti em divulgar o romanon-calon. Chamei-lhe “Palavras Mágicas” e não foi por acaso. Tal como o “Abre-te Sésamo” do Ali Babá o cobriu de tesouros, descodificarmos o romani abre o caminho da comunicação, do entendimento. Constrói afectos. Destrói barreiras. Aumentamos. E o mundo avança…
Não é fácil descodificar o romani. Dependendo da zona geográfica onde se estabeleceram, os diferentes grupos ciganos assimilaram os costumes e tradições dos locais. E isto reflecte-se na linguagem. Na Península Ibérica, falamos de romanon-calon ou romani-caló…
E por serem uma cultura ágrafa, sem forma escrita, a História dos Ciganos é transmitida oralmente, de pais para filhos. Os conhecimentos, as tradições, a Língua, passados de geração em geração, e, simultaneamente, a História a adaptar-se ao local. E por isso encontramos diferentes maneiras de representar a mesma palavra. Quando dizemos payos, paillos, pailhos, senhores, gadjé, estamos sempre a falar dos “não ciganos”, brancos. Para os "não ciganos" negros temos a palavra “calhardon”, que também significa “café”.
E por tudo isto, não desisti de colocar o Léxico no Caderno. Porque o romani faz parte da História de um Povo, da sua memória colectiva, que deve ser preservada, estudada, divulgada. Porque também serve para nos entendermos e comunicarmos.
E percebi que editar o Léxico, as Palavras Mágicas, não tinha sido um esforço em vão, quando um destes dias um amigo, para me dizer que ia ao dentista, me escreve a seguinte mensagem:
“Bom… Vou narrar-me. O senhor doutor vai ficar barbaló e eu chororó. Asi es la pacha! Zuenos! Hasta Mañana!”
A inspiração ou Duende para esta história nasceu da comunicação com um amigo, ainda mais cromo que eu, que suspeito não seja deste planeta… Foi em código, para só ele perceber… ;)
E para os mais curiosos, deixo aqui alguns links onde poderão aprender muitas coisas interessantes sobre a História do Povo Cigano. E fica a promessa (mais uma!) de voltar a este tema numa outra história… E para os mais desconfiados, as promessas estão a ser anotadas no meu Caderno de papel…
http://www.unionromani.org/pueblo_es.htm
http://iceweb.org/cadernos_ice5.html
http://iceweb.org/cadernos_ice9.html
http://www.agencia.ecclesia.pt/pub/33/noticia.asp?jornalid=33¬iciaid=59514
http://dancasdomundo.no.sapo.pt/dcigana.htm