Retirado de um jaleo de Catizzz em “A minha família cigana”, uma história penada em 14 de Outubro de 2008. http://pachadrom.blogspot.com/2008/10/minha-famlia-cigana.html
A dor sentida de dentro para fora. Vivida de fora para dentro. Ao contrário…
Perante a iminência da morte, ensinaram-nos que temos de ser fortes. O Outro tem de ser combativo. E precisa de ler isso nos nossos olhos. Para resistir. Para viver. Precisa de acreditar em nós. Que nós acreditemos nele. E por isso metemos a dor cá dentro. Ao contrário…
Morreu-me uma pessoa. Especial para mim. E para muitos outros. Morreu. De forma inesperada e violenta. Como se estivéssemos a ver uma longa-metragem, com o dedo a pressionar o botão do forward: Fim! Já cá não está. Sem que tivéssemos aquela oportunidade de dizer “mas a que propósito?”…
E o que me apeteceu fazer nos dias em que esteve doente foi chorar, gritar, praguejar o dicionário completo do melhor calão português, partir coisas, arrancar os cabelos… E não pude fazer isso. Porque o Outro tem de ser combativo e acreditar em nós… Porque foi assim que nos ensinaram.
A frase mais repetida naqueles dias tristes era: “viver um dia de cada vez”. Uma frase que ouço repetidamente dita pelos ciganos. Que têm mudado muito os seus usos e costumes. A sua maneira de estar perante a doença e a morte dos seus familiares tem-se mantido como das mais significativas tradições.
Os ciganos regem-se por determinados princípios básicos, entre eles o respeito e a veneração pelos mortos, o não abandono dos doentes. Não confiam no sistema de saúde, com a mesma confiança que depositam na incerteza com que vivem o dia-a-dia. Um dia de cada vez…
O internamento hospitalar é de um grande sofrimento para os ciganos. Não só porque os afasta da pessoa doente, mas também porque corta com a rotina familiar. E a comunidade cigana organiza-se e estrutura-se pelos laços familiares. Pelos afectos.
Quando uma pessoa cigana é internada num hospital, toda a comunidade se multiplica em manifestações de afecto pelo doente. Deslocam-se ao hospital e aí permanecem. Invadem o hospital a qualquer hora, em desrespeito pelo horário estabelecido, porque assim demonstram ao doente o seu total apoio e solidariedade, que nenhuma norma é capaz de conter.
Ficam próximos, para que o doente sinta a sua presença e saiba que não está só. Levam comida. Desconfiam da comida do hospital. E nunca levam flores. As flores são um símbolo de morte.
Hoje há uma outra compreensão destas questões pela comunidade hospitalar, questões importantes para todos os doentes e não só para os ciganos. Alteraram-se regimes de visitas, permitem-se refeições fora das dietas hospitalares. Ainda assim, continuamos a não ver mediadores ciganos nos hospitais que facilitem, que expliquem, que criem pontes de comunicação entre culturas. Entre pessoas. E a comunicação existe nos dois sentidos...
Com os mediadores, é possível não só gerir conflitos entre as famílias e o pessoal hospitalar, como sensibilizar a comunidade cigana para os problemas de saúde. Não é fácil explicar-lhes a importância da vacinação ou a necessidade de ir ao médico quando as crianças estão com gripe.
Não basta ver a pessoa e a família. Temos de olhar também para sua cultura, que se manifesta quer na expressão dos seus cuidados ao doente, mas também na forma como entendem o sentido da vida. Para um cigano não existe uma filosofia de morte, mas um esquecimento propositado da sua possibilidade. Nascem para a vida e não para morrer. Recorrem aos serviços de saúde em situações limite. Nunca pensam na morte. Não se fala do assunto e muito menos do morto.
Por isso, a notícia da morte de um cigano é recebida com grande choque e grande desgosto. Os velórios e funerais são exuberantes e dramáticos. A dor é exteriorizada através de gritos e choros. Chegam a rasgar as roupas...
Nos ciganos, após a morte de um familiar há como que um corte com o defunto. Muda-se a mobília da casa, às vezes deita-se mesmo fora os móveis, não se exibem fotografias. A festa, a música acaba. Não se liga a televisão. Os casamentos e baptizados ficam adiados ou realizam-se longe da família. Não se fala do morto.
Como em todos os processos de luto, seja qual for a cultura ou credo, o luto é um processo pelo qual se procura uma nova rotina, uma nova dinâmica, uma nova vida. A forma que assume e o tempo que dura é que varia. De religião para religião, de cultura para cultura, de família para família, de pessoa para pessoa.
O luto para as pessoas ciganas varia em função do grau de parentesco, nunca sendo menos de quinze dias e podendo ir até ao fim da vida, no caso das viúvas. Durante o luto, não se lavam, a barba e o cabelo crescem, no caso dos homens, cortam o cabelo, símbolo de sensualidade, no caso das mulheres. A roupa é negra. Os homens usam chapéu. As mulheres, lenço.
O ritual de morte e de luto é muito vivido pelos ciganos, o que os coloca perante situações complexas. São estes rituais que contribuem tantas vezes para a construção de inúmeros esterótipos e preconceitos. São estes rituais que lhes estruturam as rotinas, mas que simultaneamente os colocam perante situações de dificuldade económica e de incompreensão pela sociedade dita "maioritária".
Hoje, algumas coisas mudaram. Os jovens ciganos já não seguem com estrito rigor alguns dos rituais. Era o que me dizia uma viúva, uma vez, mostrando-me por debaixo do pano preto, o cabelo rapado. Os hábitos de higiene têm sofrido alterações. Não mudam de roupa durante o luto, mas tomam banho.
Ainda assim, na sua essência, a forma como encaram a vida e a morte mantém-se. E nós, que trabalhamos e convivemos e construímos redes de afectos com as pessoas ciganas, continuamos a alterar actividades, continuamos a retirar fotografias. Porque o respeito e a compreensão pelo sentir do Outro é mais importante...
Morreu-me uma pessoa. E o que me apetece fazer é chorar, gritar, praguejar o dicionário completo do melhor calão português, partir coisas, arrancar os cabelos… E não consigo fazer isso. Porque não me ensinaram como fazer isso… Mas na nossa cultura podemos olhar fotografias, lembrar e falar dos mortos. Que é o que faço agora.
Morreu-me uma pessoa terna. E eu pensava muitas vezes que ela deveria ser mais firme em tantas coisas… Que é o que costumamos pensar das pessoas ternas. E agora o que me lembro mais dela é da TERNURA… No que dizia e no que fazia.
E recordo tantas coisas desde que a conheci. As Festas do Avante, os Natais, as passagens de ano. Os momentos alegres, os momentos tristes. As muitas vezes que fui injusta e impaciente. As conversas difíceis sobre a vida de cada uma… Sou a “segunda mãe” da filha dela, a “tia emprestada” do filho mais novo… A casa sempre aberta. Disponível para nos receber. Como as casas ciganas. Fossemos quantos fossemos! E às vezes éramos muitos… A preocupação connosco, estamos bem?
E as festas de pijama entre primos. Os telefonemas, para lá e para cá, para ver se está tudo bem, se os lacorilhos ainda não partiram a mobília… E do outro lado do telemóvel, a música enquanto não me atendia: “O Mundo ao Contrário”, dos Xutos, a lembrar concertos na Festa. E eu a brincar, a dizer-lhe: “não atendas, estava a curtir a música”. Ela a rir…
… “Se gosto de ti, se gostas de mim, se isto não chega, tens o mundo ao contrário". E não chegou… E o mundo está mesmo ao contrário!