terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Pedras contra Tanques: 180 dias depois


Em Maio escrevi neste Caderno sobre os acontecimentos da Bela Vista. Sobre a relação que nós, "trabalhadores do social", temos com a Comunicação Social. Da forma como o Quarto Poder "trabalha socialmente" a informação.

Agora, 180 dias depois, a Grande Reportagem da SIC volta ao tema. Estiveram no Bairro. Entrevistaram este mundo e o outro. A nossa expectativa era grande. O resultado pode ser visto abaixo.

Deixo-vos com o vídeo promocional e a Reportagem propriamente dita. Comparem! Comentem...

Para já, as opiniões que tenho ouvido divergem.

Uma Reportagem narrativa? A vida de 5 jovens referência do Bairro?

O papel da Religião na estruturação da vida das pessoas? Ou a total ausência do Estado no Bairro, enquanto regulador social?

Eu, pessoalmente, esperava mais. É importante que se passe de facto uma mensagem que rompa os estereótipos do gueto de marginais. Que as fronteiras culturais e sociais que impomos aos outros os condicionam. Que, como diziam os familiares dos jovens entrevistados, é preciso trabalhar e estar atento. Estar presente. Escutarmo-nos uns aos outros.

Ainda assim, soube-me a pouco... E vocês, que dizem?

Histórias afectivamente relacionadas:
http://pachadrom.blogspot.com/2009/05/pedras-contra-tanques.html
E todas as que se seguiram sobre a Bela Vista.







Em Maio deste ano o bairro da Belavista, em Setúbal, foi cenário dos piores confrontos urbanos de que há memória em Portugal.
Seis meses depois, a SIC foi conhecer por dentro o contexto.
Falámos com um dos responsáveis pelos incidentes que, durante várias noites, causaram alvoroço no bairro. E fomos descobrir o outro lado da Belavista.

6500 pessoas a viverem num ambiente degradado e a precisar de ajuda urgente.

Gente diferente. Famílias vizinhas produziram filhos opostos. Cruzámos amigos de infância: um deles licenciou-se e atingiu posição de liderança na faculdade, o outro escorregou na vida e mergulhou no pântano da marginalidade.

Belavista, 180 dias depois elege o exemplo de 5 resistentes que, apesar do bairro, conseguiram ultrapassar o limite.

Segunda-feira, 14 de Dezembro.

Jornalista: Pedro Coelho
Repórter de imagem: Mário Cabrita
Edição de imagem: Ricardo Tenreiro
Grafismo: Carla Gonçalves
Produção: Isabel Mendonça; João Nuno Assunção
Coordenação: Cândida Pinto
Direcção: Alcides Vieira


segunda-feira, 30 de novembro de 2009

O Coração das Mulheres Ciganas


“
Choeur de femmes tsiganes” (coro de mulheres ciganas) é o título que Claire Auzias deu a uma colectânea de 24 testemunhos de mulheres ciganas europeias. Jogando com a palavra “choeur”, que é pronunciada com o mesmo som que palavra coração “coeur”, Claire apresenta-nos as histórias de vida de mulheres ciganas, reveladoras de uma vida intensa que nós não suspeitamos… Vidas de mulheres que encontraram alguns corredores de liberdade na labuta duplamente excludente: por serem mulheres e por serem ciganas, numa Europa que se diz democrática, solidária, acolhedora… A não perder…



"As mulheres que a sua palavra neste livro são singulares. Gitanas, Manouches, Yenish, Romnia, Sinti, viajantes, todas são mulheres ciganas. Elas têm também outras identidades: francesas, suíças, espanholas, romenas. Elas poderiam ser nossas colegas de escola primária, ao fundo da sala, ou na saída da aldeia ou vila, no fundo de um campo. Na periferia da minha cidade natal, elas vão e vêm durante toda uma vida, em torno de espaços de estacionamentos ou de terrenos baldios. O que elas nos dizem do seu quotidiano é inimaginável. Contudo não há revelação nem sensacionalismo, nem furo jornalístico nem grande espectáculo. Não. Humildade, sobriedade, receosas.
De repente, vozes se levantam do outro lado da Europa. Polifonias que nos dizem do seu orgulho, das suas lutas, dos seus desaires, das suas forças. Nas pregas da vida cigana, a emancipação das mulheres também chegou. Ela varre todos os dias práticas arcaicas. Ela ri. Ela joga com o falar familiar das mulheres de hoje. Quarenta anos depois do nascimento do Movimento de Libertação das Mulheres, compus este ramo com as minhas irmãs romnia que nos devolvem o gosto pela liberdade, pela combatividade e esta mistura inegável de gravidade e de ligeireza."

Em Claire Auzias, Choeur de femmes tziganes, Égregores Éditions 2009
http://egregores.editions.free.fr/claire-auzias-choeur-de-femmes-tsiganes.html



A Olga Mariano e eu, tivemos o prazer de conhecer esta mulher singular (à volta de um arroz de polvo em minha casa) de olhos claros e sorriso fácil, sempre atenta ao outro, curiosa q.b., revelando algum pudor nas perguntas que coloca por um profundo respeito pela pessoa que adivinha habitar por detrás de cada olhar, sussurro, suspiro, silêncio…Sendo crítica, luta por uma emancipação das mulheres vinda de dentro e não imposta por modas políticas… Um Jaleo para esta mulher europeia que conheceu por dentro outras mulheres e homens ciganos romenos noutro livro editado em Portugal, em 2000: Os Ciganos.


História penada pela Myrna

Histórias afectivamente relacionadas:
http://pachadrom.blogspot.com/2008/12/no-avesso-do-cenrio.html


sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Tarde Intercultural Cigana - Casamentos Mistos


No final de Maio deste ano, aconteceu (mais) um momento de cumplicidades entre payos e ciganos, entre homens e mulheres. Entre pessoas. Com a presença das Araquerar. Infelizmente não pude participar mas fica aqui o testemunho de quem lá esteve. E aguardo que as Araquerar façam o registo de (mais) uma aventura.




"Os casamentos mistos são um fenómeno social com uma importância e uma visibilidade crescente no mundo actual. Por este motivo, é imprescindível aumentar o conhecimento social que se tem sobre estas famílias, nomeadamente para entender quais são as formas, as dinâmicas e as estratégias de conjugalidade adoptadas por este tipo de casais para superar as suas diferenças culturais e assumir uma verdadeira união conjugal."

Sofia Gaspar, 2008. CIES-ISCTE



Casamentos mistos: um desafio ao amor? Ou o amor faz o milagre da aceitação incondicional?

Desafiaram-se três mulheres de coragem - duas jovens ciganas, balzaquianas, misteriosas, e uma payita, na idade da loba, com a ternura dos quarenta a transpirar-lhe pelos poros - de assumirem a sua diferença, de partilharem com “desconhecidos” o que pertence ao foro privado e que tanto nos intriga - mais os estudiosos (e curiosos) do que o comum dos mortais, porque estas coisas do amor, não escolhem idade, classe social, origem étnica, religião; porque estas coisas do amor são, efectivamente, misteriosas, mágicas, uma química, um duende…

O debate foi lançado com algumas questões-desafios:
O que lhes parece ter sido o toque de magia que as fez unir a uma pessoa "diferente" (terá sido assim tão diferente?), que o acaso (terá sido um acaso?) fez com que se unisse a ela, através de laços conjugais. Quais foram as etapas por que passaram? Quais foram os obstáculos que encontraram e como os ultrapassaram? Que mudanças profundas (se é que as houve) se operam nas suas vidas e nas suas formas de encarar a vida a dois?

Não vou expor aqui o que cada uma quis partilhar, desafiada pelas perguntas lançadas pelas pessoas presentes… A riqueza do debate e da partilha foi imensa e eu não estava lá com o intuito de anotar tudo, como faz um antropólogo… Estava lá para incitar as perguntas, dinamizar o debate, lançar pistas de aprofundamento, aflorar contradições, tentando desmontar estereótipos, dando voz a estas três mulheres muito especiais: Sónia Matos (já conhecida dos aficionados deste blogue), Noel Gouveia (prima da Sónia, filha da Olga Mariano) e Lígia Vitorino (uma antropóloga que veio a descobriu ter casado com um parente da Sónia e da Noel).

Falou-se de obstáculos que se tiveram de encarar de frente, encontrando estratégias para os contornar sem se dilacerar identidades; de dilemas que se tiveram que equacionar; de decisões que se tiveram que tomar, de cumplicidades que se criaram; de novos estares e sentires que se descobriram, e de redes sociais que se construíram… Quando se toma este passo, a vida a dois nunca é apenas uma vida a dois: ela traz consigo duas famílias – com os seus rituais, hábitos, crenças, etc... - que se unem por partilharem um bem comum: a felicidade dos seus filhos e filhas – e aprendem a conhecer a pessoa que habita no(a) Cigano(a) e na(o) Payita(o).

Concluiu-se que os casamentos mistos lidam com os mesmos obstáculos que os outros casamentos também enfrentam e que só o amor, a compreensão, o respeito pelo outro os pode transformar em desafios e oportunidades…! Na intimidade, no privado, na gestão das relações familiares somos muito mais semelhantes do que diferentes… E quando estes laços duram (como é o caso do casamento da Lígia cuja ligação dura há mais de 20 anos) é porque o casal aprendeu a andar com os sapatos do outro e fez caminho com eles calçados!

História penada pela Myrna

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

10 Minutos com... A AMUCIP e as Araquerar


No dia 1 de Julho de 2008 passava na RTP1, em horário nobre, o programa 30 Minutos. Numa das peças, contavam-se histórias sobre Mulheres. E foi nesse dia que ganhei um novo nome artístico, consequência de um equívoco entre professora e jornalista: nascia a Vanda Neves! E mais não escrevo para não estragar a surpresa...



Gracías aos magos da informática- o Duo Johnny & João. Um Olé com Duende para eles!

terça-feira, 24 de novembro de 2009

As Mulheres Ciganas: Um Desafio à Emancipação do Povo Cigano


As comunidades ciganas vêem-se confrontadas, hoje, com uma lógica de organização social baseada na emancipação da mulher e nas relações democráticas, distinta da sua, profundamente tradicional e conservadora. De facto, a subordinação da mulher ao homem, em que “em pequena, a menina obedece ao seu pai; em mocita obedece ao pai e aos irmãos; em casada obedece ao marido; em velha, obedece aos filhos”; e a subordinação em relação à idade, em que “os filhos obedecem aos pais (mesmo em adultos), os jovens obedecem aos adultos e a todos os ‘homens de respeito’, que são sempre homens de idade, (havendo uma hierarquia análoga entre as mulheres, se bem que a sua lealdade seja sempre em relação ao mundo dos homens)” contrastam em muito com os ideais dos países do mundo ocidental e/ou ditos democráticos.

Diante deste panorama e no interior deste estreito espaço de manobra, as mulheres ciganas têm vindo a ser chamadas a assumir um papel fundamental no processo de emancipação do povo cigano. Elas,sabendo que não devem estar um passo à frente do homem na caminhada para o desenvolvimento, lutam por um espaço ao seu lado, ainda que ligeiramente desviado para trás. Desde criança, são-lhe incutidos, pelas suas próprias mães, tias, avós e irmãs: o saber escutar, calada; o saber servir, submissa; o saber cuidar, dedicada; o aprender, observando. Nelas, o sentido do dever (para com a família e os seus) chega, com frequência, ao ponto de se esquecerem de si próprias enquanto pessoas. De facto, a vida das mulheres ciganas é ditada pelos papéis sociais que a comunidade lhe tem vindo a atribuir. Todavia, à medida que as comunidades ciganas se têm vindo a deixar permeabilizar – através do convívio com os demais cidadãos portugueses - pelas aceleradas mudanças de hábitos de vida e de consumo desenfreado que a publicidade tem veiculado profusamente - através da televisão e dos centros comerciais - pouco a pouco, têm-se vindo a introduzir mudanças nas relações sociais e, obviamente, nos usos e costumes tradicionais.

Para as mulheres, tanto ciganas como não ciganas, serem emancipadas é sinónimo de independência económica... Recentemente, no caso das mulheres ciganas, as situações que a implementação do RMG/RSI (desde 1996) tem vindo a promover trouxeram alguns hábitos novos. Assim, vejamos: como elas, geralmente, não são casadas pelo registo – no BI é solteira - quando se candidatam à prestação do RMG/RSI sendo, para efeitos legais, mãe solteira, elas podem receber uma remuneração para o sustento da família (independência económica). Em troca e para contribuir com a sua quota parte neste novo “negócio” (é, como tal, encarado pelas comunidades ciganas), elas devem mandar os seus filhos para a escola, nomeadamente as raparigas, obrigando-as a assumir riscos sobre a falta de vigilância que a menina deve ter (para se manter “pura e honrada” até ao casamento). Perante as suas famílias, elas assumem riscos para ver os seus filhos evoluírem; elas assumem riscos garantindo o sustento mínimo da sua família - pois é às mulheres ciganas que compete providenciar alimento diário para todos - sem ter que depender, sistematicamente, do dinheiro que os “seus” homens angariam para a família.

Neste sentido, os cursos profissionalizantes a que têm vindo a ser chamadas a frequentar, podem trazer alguns efeitos positivos. Por um lado, é no seio deles que elas vão aprendendo a conviver com outras mulheres, nomeadamente não ciganas, muitas vezes em situações semelhantes, em espaços que promovem um olhar mais atento em relação a si própria, sobre o seu papel como indivíduo para além de filha, nora, mãe, sogra ou viúva. Progressivamente, elas têm vindo a utilizar este espaço/tempo para si próprias, enquanto mulheres, e descobrirem-se enquanto pessoas e também enquanto indivíduas. Paulatinamente, as regras, os usos, os costumes são postos em causa porque confrontados com os de outras mulheres de diferentes culturas ainda que de semelhantes condições socioeconómicas.

As mulheres ciganas têm vindo a saber implementar uma revolução tranquila no seio da família cigana e do povo cigano. Elas sabem, como ninguém, o que significa “o poder atrás do trono”. Elas têm vindo a aprender com alguns dos atropelos cometidos à condição do Homem e da Mulher, em nome da liberdade, pelas sociedades ocidentais e/ou ditas democráticas. Elas sabem que não se conseguirão emancipar enquanto os seus filhos, varões, o não conseguirem também. Por isso, elas lutam, com todas as suas forças, ainda que discreta e vagarosamente, para que as novas gerações possam vir a fruir dos instrumentos básicos de emancipação – ler, escrever, contar, utilizar os computadores, dominar a burocracia, etc. - isto é, possuir a instrução básica necessária para poderem vingar e reivindicar os seus direitos na sociedade dominante enquanto europeus, portugueses E ciganos. Sabem, também, que, se evoluírem mais depressa que os “seus” homens, não terão o apoio dos seus. E sabem que se não tiverem o apoio dos seus, da sociedade maioritária também o não obterão. Porque sabem que todos – abusivamente - desconfiam – quase que visceralmente - das pessoas ciganas façam elas o que fizerem, mesmo que seja professor, mecânico, pedreiro, porteiro, segurança, balconista, motorista, ajudante de cozinha, ajudante de jardim-de-infância, cabeleireira, etc. A prova disso são alguns dos efeitos negativos dos inúmeros cursos de profissionalização que têm vindo a ser implementados e que, depois de se “brincar” com as expectativas das pessoas no que diz respeito à da mobilidade social e à autonomia financeira, são lançadas no desemprego e no assistencialismo, tendo saboreado um pouco outros modos de vida e, entretanto e talvez, terem “desaprendido” a serem ciganas! É como dar um rebuçado a uma criança que, depois de colocado na boca, lho retiram! Os efeitos deste tipo de actuação são, sem dúvida, bastante nefastos e funcionam como antídoto contra as propostas de mudança (sendo que há quem lhe chame “integração”) que lhe são propostas (ou melhor, impostas)!

História penada por:
Mirna Montenegro (ICE-Instituto das Comunidades Educativas / Projecto Nómada)


Este texto foi anteriormente publicado no boletim do projecto “Príncipes do Nada” do PROACT/ISCTE e no “Noticias da Amadora”


Bibliografia:

Carlos, Maria da Liberdade Sousa (2000) Estádios de uma vida ditada: filha, mulher e mãe. A construção do feminino para os gitani, Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa

Montenegro, Mirna; Org. (1999) Ciganos e Educação, Setúbal: ICE

Montenegro, Mirna (2003) Aprendendo com Ciganos: Processos de Ecoformação, Lisboa: Edições Educa

VV. AA. (1999) Mujeres Gitanas ante el Futuro, Madrid, Editorial Presencia Gitana

VV. AA. (2000) Mujeres Gitanas, Gitanos, Pensamiento y cultura nº5, Revista de la Asociación Secretariado General Gitano. Madrid

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Olga Natália Maia Mariano


“Nós temos cinco dedos na mão. São todos diferentes. São todos necessários.”
Olga Mariano – Assembleia da República, na apresentação pública do Relatório das audições sobre ciganos portugueses, no dia 17 de Março de 2009



Não me lembro de quando a conheci. Terá sido num dos muitos momentos Nómada. Mas recordo-me das suas palavras ditas e não preciso de me socorrer dos papelinhos dispersos onde vou anotando a poesia que lhe sai das suas mais simples afirmações.

A primeira frase que lhe recordo, e que nunca esqueci, será: - Misturem-se! Vão ver que não dói. Filosofia de vida que me acompanha desde então. E não dói, acreditem!

Dizer-lhe a idade seria uma indelicadeza da minha parte. O que já viveu e sentiu dariam para mais de um século… A primeira mulher cigana a ter carta de condução em Portugal. Presidente da única associação de mulheres ciganas do país – a AMUCIP. Uma Mulher bonita, por fora e por dentro.

Era muito nova quando perdeu o marido e ficou sozinha, na sua condição de mulher viúva e cigana, a cuidar dos filhos. O traje negro das viúvas ciganas vestido com o orgulho de quem não abdicará das suas tradições e convicções para construir o sonho de um mundo multicultural, alicerçado na aceitação do Outro diferente e na criação de alternativas de pensar, agir e sentir.

As batalhas que já travou na vida só ela as saberá contar. Hoje, homens e mulheres, ciganos e não ciganos, ficam em silêncio para a ouvir, num respeito que guardamos apenas para aqueles que sabem fazer magia com a vida e deslumbrar-nos com ensinamentos. Coelhos na cartola. Tesouros do fundo do mar.



Escreve, quem a conhece bem:

"Eu conheci a Olga através dos seus poemas que foram sendo publicados no Andarilho – boletim do Nómada. Depois, porque ambas escrevíamos poesia, juntámo-nos num projecto Cultural em Setúbal, dirigido por outra grande mulher – Maria José – e, através deste projecto ofereci à Olga, pelo seu 50º aniversário, o seu primeiro livro de poemas:“Poemas desta vida Cigana”, editado em 2000.
Depois e, durante mais 3 anos, fui-lhe oferecendo, sempre pelo seu aniversário, os seus poemas compilados em livros, dos quais já se publicaram: “Festejando a Vida” em 2002; “Inquietudes” 2003; “Tesouro da Vida” 2004. Tentámos que fossem todos publicados numa compilação, para servir de motivação as outras mulheres ciganas que frequentam os cursos de alfabetização… Mas em vão… Só promessas que o vento leva…"

Myrna


Aqui ficam alguns destes poemas que, como diz a Myrna, deixam transparecer muito da persistência desta mulher muito especial.





Foi no meio da vida
que encontrei uma passagem.
Era muito estreita e pouco viável.
Tentei penetrar e não consegui
Recuei atrás quase desisti.
Um pouco à frente
encontrei uma luz
dirigi-me a ela como a uma cruz

havia esperança de continuar.
É pensando nela que não vou chorar.
Já me sinto tonta
de tanto pensar nessa passagem

não terei lugar

De desilusão em desilusão
vou ultrapassando
cada portão
este é meu destino
e não vou deixar
que outros ocupem
este meu lugar
Se tanto lutei para o conseguir
não será agora que vou desistir
foi no meio da vida que encontrei a passagem
é pensando nela que vou de viagem

Olga Mariano

Ser Cigano
Ser cigano é ser diferente
É como a água a correr
Cristalina e luzidia
Qual riacho a percorrer.
As margens, que mãos tão frias!
O leito, acolhedor
O afluente é a alegria
O desaguar é o prazer.
Será que é compreendido?
O seu andar bamboleante
Quais ondas em maré fria
Qual noite escura e sombria
Que não vês a luz do dia
Até ao amanhecer.
Ser cigano é ser diferente
Ser cigano é ser artista
Pois tudo o que faz, não faz
E tudo o que quer, não quer.
Como será o futuro?
Que futuro nós teremos?
Com tanto para lutar
Sem nunca nos apercebermos
Que difícil e triste realidade
Um dia se esquecerá.
E as batalhas que perdemos!
Mas perder uma batalha
Não é perdermos a guerra
E como trabalhadores e diferentes que somos
Nós juntamos nossas mãos
E com força e harmonia
Carinho e simpatia
Um dia, não muito longe
O sol nos alumia
E como tudo tem um nome
O nosso é alegria.

Natália Maia


Voltámos...!
Como é bom voltar no tempo.
Que andanças!
Que mudanças,
Numa lacuna sem vida.
O reencontro
Da amizade, do carinho, da saudade
Quais belos três mosqueteiros
Quais damas abandonadas
Num tempo que não contou
Que nem me lembro de nada
Duma volta tão esperada
Sonhos na caixa fechada.
Au revoir, à bientôt.

Olga Mariano


quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Tomar a Palavra


A AMUCIP promoveu em 2006 o lançamento do livro Tomar a palavra – olhares e falas de mulheres ciganas portuguesas sobre a família e o trabalho, com o apoio da Comissão para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres. Neste livro relatam-se experiências de vida de mulheres ciganas na conciliação da vertente laboral e familiar. As entrevistadoras são mulheres ciganas que recolheram depoimentos de mulheres casadas, viúvas e solteiras da sua comunidade. O objectivo foi dar a conhecer o que pensam as mulheres ciganas sobre famílias e tradições, movimentos e territórios, trabalho e escola, deixando ainda mensagens a ciganos e não ciganos, revelando pessoas marcantes nas suas vidas, discriminações sentidas pelos não ciganos e desigualdades que enfrentam todos os dias no seio da sua própria comunidade.


Aqui fica um cheirinho dos tesouros que moram dentro deste livro, através da transcrição da sua introdução.


“As circunstâncias históricas tiveram um papel decisivo na vida dos ciganos, com uma constante perseguição. E se esta não foi a causa única, muito contribuiu para que os ciganos se entregassem dia após dia, ano após ano, a uma luta pela sobrevivência, levada a cabo com o mínimo de interferência na vida da sociedade maioritária.”

O cigano vive num mundo “só dele”…

O mundo dos “Senhores” não lhe interessa, pois vive em função da sua comunidade…

Não se discute política na comunidade cigana, pois os ciganos não se regem por “Leis dos Senhores”, mas sim pelas suas.

A única coisa que se discute do “Mundo dos Senhores” é o futebol.O homem, porque a mulher não.

Dando seguimento a um “sonho” iniciado há seis anos atrás pelas sócias fundadoras da AMUCIP, através deste livro de “histórias de vida”, demos oportunidade às mulheres ciganas de “tomarem a palavra”, ouvindo, sentindo, entendendo mentalidades que fazem parte da nossa realidade, mas com formas diferentes de dizer e de sentir.

Ao dar oportunidade a estas mulheres de falarem dos seus sentimentos com outras mulheres da sua comunidade, não só lhes é transferido o poder – pelo envolvimento na discussão, na reflexão e na apropriação das problemáticas – como se dá a compreender à sociedade maioritária como decorre a vida quotidiana da mulher cigana, no seu grande empenhamento quer na vida familiar quer profissional, que começa muito cedo na sua vida, ainda em casa dos pais.

Dêmos-lhe então a palavra…


Sobre a AMUCIP e o seu trabalho:


http://www.principioactivo.com/equal_news/fevereiro08_foco/emfoco4.htm

http://www.ciga-nos.pt/Default.aspx?tabindex=8&tabid=15

http://www.tsf.pt/paginainicial/AudioeVideo.aspx?content_id=891748



(aceitam-se contribuições para fazer crescer a lista de links sobre a AMUCIP)